O que há para se estudar?
Ossos e dentes são órgãos calcificados, são partes do corpo que podem estar preservados, mesmo depois de enterrados por longo tempo.
Mais raramente também se preservam, de modo natural, ou por artifícios humanos, outras partes não calcificadas que podem ficar mumificadas. Evidências mais raras são coprólitos (fezes dessecadas ou fossilizadas), cabelos, unhas, cálculos biliares e cálculos renais. Todos têm grande interesse para os especialistas em doenças antigas.
Músculos, pele, intestinos e até o cérebro podem conservar-se naturalmente.
São achados geralmente em condições extremas: em clima seco e frio, nas geleiras, no interior de pântanos, em turfeiras, nas areias secas do deserto, em terrenos com muito sal ou em outras condições onde a decomposição é interrompida ou desacelerada.
Muitas vezes quase não resta nada para estudar.
Um bom trabalho depende de uma boa escavação, cuidadosa, bem documentada, já que cada detalhe sobre o enterramento pode ser uma pista. Registrar minuciosamente e adequadamente, transportar com cuidados especiais, tratar e conservar em laboratório, e analisar com recurso como as diferentes técnicas de microscopia ótica e eletrônica, a radiografia, a tomografia computadorizada ou empregar técnicas bioquímicas para identificação do DNA ou de outros componentes orgânicos são alguns dos passos de trabalho que os detetives das doenças podem dar.
No Brasil, os climas e os solos nem sempre favorecem a preservação.
Muitos esqueletos pré-históricos vêm de locais ricos em sais de cálcio, como os sítios arqueológicos de tipo sambaqui ou as grutas calcáreas; ou então de terrenos muito secos, como o sertão semi-árido da região nordeste do Brasil.
Algumas escavações arqueológicas, permitindo boa contextualização e centenas de sepulturas, asseguram muitas informações sobre o período estudado. Em tais casos, se constituem coleções numerosas e representativas de populações desaparecidas e de suas condições de saúde.
A obtenção de tais materiais permite abordagens paleoepidemiológicas.
A pesquisa das doenças do passado hoje é baseada em hipóteses claras de trabalho e no planejamento de coletas oportunas de amostras. Seus resultados são ricos em dados e os materiais, em geral, podem ser mais bem aproveitados.
Na arqueologia americana, a predominância absoluta de achados pré-históricos, ou seja, que não podem ser associados a uma documentação escrita, obriga a que se desenvolvam estratégias de pesquisa que aumentem a segurança na leitura dos testemunhos funerários que não podem ser correlacionados à história escrita.
