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Saúde para os museus, Museus para a saúde
Última modificação: 18/05/2020 | 14h55

Texto produzido por Eurípedes Junior, Compositor, museológo do Museu Nacional de Belas Artes e vice-presidente da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente
No Brasil, comemora-se em 18 de maio o Dia na Luta Antimanicomial, e o Dia Internacional de Museus. Essa feliz “coincidência” nos remete a uma instituição que conjuga essa dupla efeméride: O Museu de Imagens do Inconsciente.
Reunindo grande parte do legado de Nise da Silveira, o Museu por ela criado já nasceu como uma vocação para a liberdade, ao revelar para o mundo as riquezas insuspeitadas do mundo interno de pessoas que jaziam no anonimato, sofrendo de dupla prisão: a experiência dolorosa da loucura e o confinamento obrigatório, que poderia perdurar por toda vida, em um ambiente de abandono, promiscuidade e violência.
Já de antes, ao implementar com forte abordagem cultural atividades terapêuticas com as quais procurou fazer frente aos agressivos tratamentos da psiquiatria dominante, Nise apontava para a necessidade de uma completa mutação dessa modalidade médica.
Desde a primeira exposição, o impacto dessa coleção, hoje a maior do mundo no gênero (380 mil obras), foi enorme. A partir de então não cessou de crescer o número de pessoas que apoiam, admiram e colaboram para a disseminação dessas ideias – criatividade, liberdade e afeto. Difícil mensurar a importância desse trabalho para um dos maiores movimentos sociais da história contemporânea do Brasil. A Luta Antimanicomial varreu o país de norte a sul. Profissionais, pacientes e famílias, a sociedade como um todo marcharam juntos em uma cruzada que resultou na Reforma Psiquiátrica, erigida sobre este movimento e regulada por uma legislação das mais avançadas no mundo.
Difícil mensurar a importância do trabalho do Museu de Imagens do Inconsciente e Nise da Silveira na mudança de paradigmas no imaginário social sobre a loucura e sobre aquele que a experimenta. Difícil saber a dimensão da importância dos quadros de Emygdio, Adelina e Raphael, entre tantos outros, na redução de estigmas e preconceitos, na transformação através da sensibilização causada pela contemplação de suas obras pungentes cuja beleza não cessamos de admirar.
Hoje, a melhor maneira de celebramos essa dupla comemoração é persistir na luta pelo direito à saúde e cultura, lembrando sempre desta lição da mestra: indagada sobre qual palavra de que mais gostava, Nise da Silveira respondeu: “Liberdade. Gosto do som dessa palavra”. E nós também, Nise.