Cultura e Saúde

Cultura e Saúde


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Última modificação: 06/02/2019 | 16h24

Faz muito tempo que a cultura deixou de ser pensada apenas como o conjunto de elementos simbólicos transmitidos de geração em geração, para ter seu escopo ampliado e começar a ser compreendida também como o conjunto de toda e qualquer prática que atravessa a vida humana em sociedade, de modo que não seria arriscado dizer que a cultura não tem um “fora”, isto é, que não é possível estar fora da cultura, ou “não ter cultura”, jargão ainda hoje repetido por certos agentes das elites civilizatórias. O mais apropriado, no mundo contemporâneo, seria assumir que não se trata de uma cultura, unívoca e totalizante, mas de culturas, no plural, sendo essa multiplicidade atribuída a um conjunto de diferenças que se dão no interior da teia social, tais como a época (diferenças históricas), a região (diferenças geográficas), a classe social (diferenças econômicas), entre muitas outras.

Um elemento constitutivo da nossa cultura é a saúde: tanto o conceito de saúde quanto suas representações, seus saberes e suas práticas são formulados segundo aspectos culturais, que variam quando situados nos diferentes critérios listados acima. Isto equivale a dizer que as práticas ligadas à saúde são, sempre, aspectos culturais de uma sociedade, porque atravessam o fazer humano. Sendo assim, a relação entre cultura e saúde constitui um campo amplo, diversificado, que pode ter múltiplas ressonâncias. 

Quando se pensa nessa relação, entre cultura e saúde, as primeiras ideias que costumam aparecer são associadas à arte – sendo arte entendida aqui como uma espécie de síntese da cultura, na medida em que está ligada tanto à dimensão simbólica da vida quanto ao fazer humano em sua perspectiva mais cotidiana. A arte pode ser um empreendimento de saúde. Tal afirmação admite, pelo menos, duas leituras. A mais imediata é aquela segundo a qual as práticas artísticas, o hábito artístico, a produção e mesmo a fruição de obras de arte teriam uma espécie de “poder curativo”. É daí que surge essa ideia, que ecoa através das gerações, que sentencia que ler livros, frequentar museus ou ouvir músicas pode “salvar vidas”; também é daí que vemos despontar, pelos sistemas de saúde de todo o mundo, equipes especializadas em promover ações artísticas para pacientes, com vistas desde à prevenção de agravantes nos quadros clínicos até a integrar as medidas paliativas para pacientes terminais; a própria ideia de “arteterapia”, em suas diversas acepções, tem aí uma de suas derivações.

Essa chave de leitura opera, contudo, a partir de ideias restritas tanto de saúde quanto de arte e cultura: por um lado, entende a saúde como o necessário oposto da doença, visão que não cabe mais nos dias de hoje (a própria Organização Mundial da Saúde, por exemplo, reconhece uma definição mais ampliada para o termo); por outro, faz um uso meramente instrumental da arte, não explorando seu potencial simbólico transformador.

É fundamental nos abrirmos para outras interpretações, que entenda a relação entre saúde e cultura de forma mais orgânica, admitindo que os dois campos compreendem o mesmo domínio: aquele que articula, numa dimensão ética, os modos de estar no mundo orientados para a direção da vida em sua plenitude. A arte é um empreendimento de saúde porque é um dos campos em que se pode produzir as transformações necessárias para criar novas formas de estar no mundo e para reelaborar a vida com mais qualidade.

É nesse sentido que nos parece fundamental a existência de espaços culturais que tenham como função promover e divulgar ações em saúde, resgatando a ideia de que a saúde é, além de um direito dos cidadãos, um bem cultural de suma importância, que merece, portanto, ser desfrutado por todos. Tais ações implicam, por um lado, numa disseminação de saberes e práticas em todos os estratos da sociedade, e, por outro, na criação, por meio do lúdico e do simbólico, das condições para um mundo com mais qualidade de vida.

O Centro Cultural do Ministério da Saúde atua, no âmbito do SUS, a partir dessa perspectiva mais ampliada de saúde e cultura, promovendo ações que fortaleçam a saúde pública, disseminando saberes por meio de atividades artístico-culturais, criando redes de articulação entre diferentes esferas de profissionais da área. Acreditamos que, dessa forma, contribuímos para a consolidação de uma saúde cidadã, democrática e culturalmente balizada.

 

Foto preto e branca. O pintor Emygdio de Barros, sentado, trabalha com um pincel em frente ao quadro

Emygdio de Barros no ateliê de pintura da Seção de Terapêutica Ocupacional no CPPII

Com destaque, ao lado esquerdo, dois painéis com informações sobre os números da Saúde. Ao lado direito, dois homens e uma mulher, todos de costa, observam um dos painéis da exposição

A exposição "SUS, a saúde do Brasil", realizada no Museu da Vida, na Fiocruz