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Saúde com Arte: Tenda do Conto (RN)
Última modificação: 06/10/2020 | 08h42

Na série “Saúde com Arte”, o Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS) divulga iniciativas espalhadas pelo Brasil que unam cultura, arte e saúde. No segundo texto da série, conversamos com a enfermeira e doutora em Ciências Sociais Maria Jacqueline Gadelha, coordenadora da Tenda do Conto, projeto da Secretaria de Saúde de Natal (RN).
Se você faz parte ou conhece algum grupo que dissemina cultura, saúde e arte pelo Brasil, envie um e-mail para nós: ccms@saude.gov.br
Um rádio antigo, um bule de café, um rosário, xícaras, um ferro de passar a brasa, monóculos, fotos antigas, um estilingue.... Ao som de um violão, esses objetos são postos sobre uma colcha de fuxico em uma mesa, enquanto várias pessoas estão sentadas em círculo. Uma das cadeiras, coberta por uma manta, está vazia ao lado da mesa, esperando que um usuário do Sistema Único de Saúde (SUS) conte sua história. Assim se inicia um encontro da Tenda do Conto, projeto de saúde, arte e cultura da Secretaria de Saúde de Natal (RN).
Os objetos não estão ali à toa. Quando os usuários são convidados pelos agentes de saúde para participar da Tenda do Conto, são provocados a levar de casa um objeto afetivo que lembre alguma história marcante vivida. Esta história será compartilhada com todos os participantes da Tenda durante o encontro, através de um relato oral, música, poesia, escritos, desenho… A maneira que a pessoa se sentir mais à vontade.
- É um espaço aberto para a escuta, de respeito à vida, acolhimento de singularidades e diversidades. A única regra é o silêncio, a atenção à história que está sendo partilhada pelo outro - explica a enfermeira e doutora em Ciências Sociais Maria Jacqueline Gadelha, coordenadora do projeto.
De acordo com Maria Jacqueline, o projeto se funda num entrelaçamento das diretrizes da Política Nacional de Humanização e da Política Nacional de Educação Popular em Saúde. O objetivo principal é aproximar as pessoas, acolhê-las e escutá-las a partir de um modelo de saúde cujo foco não seja apenas o adoecimento.
A Tenda do Conto gera o reconhecimento dos usuários, que passam a ser vistos de uma nova forma pelos outros pacientes e também pelos profissionais de saúde. Não são apenas “o diabético”, “o tuberculoso”, “o hipertenso”. São pessoas que têm histórias de vida, saberes e estratégias para enfrentar as suas dificuldades.
- Passamos a perceber na paciente diabética aquela habilidade de pintar orquídeas em espelhos. Perceber no senhor hipertenso o poeta que conta a sua vida em versos. E conhecemos a mãe que encontra na canção um modo de amenizar a saudade da filha que partiu. Enxergamos no idoso que vive em isolamento um exímio tocador de gaita... - observa Maria Jacqueline.
Durante o encontro, todos os participantes têm a oportunidade de contarem as suas histórias e serem ouvidos. Ao final, acontece uma avaliação na qual cada um compartilha o que aquela experiência despertou.
Surgimento do projeto
A ideia para a Tenda do Conto surgiu em 2007, durante a finalização de um projeto de mestrado cujo objetivo era entender como mulheres em situação de vulnerabilidade, na região Norte de Natal, enfrentavam as adversidades do cotidiano e qual era o papel da Estratégia de Saúde da Família na vida delas.
- O que nós escutávamos, basicamente, eram histórias. Histórias de perdas, resistência, superações... – conta Maria Jacqueline.
Como as entrevistas eram realizadas em domicílio, as mulheres recorriam a objetos que as ajudavam a relembrar os momentos vividos. Fotografias de entes queridos, cartas de amor do passado, letras de músicas guardadas, imagens de santos, rosários, bonecas de pano. Quando as entrevistas acabavam as mulheres manifestavam gratidão e bem-estar. Foram essas reações que dispararam a ideia de realizar um projeto mais abrangente.
As primeiras tentativas, com o grupo de Hipertensos e Diabéticos, geraram um filme amador chamado “Sobre Anjos, Borboletas e Beija-Flores”, no qual Seu Olívio, Dona Maria e Dona Rita contam histórias sobre suas vidas. A partir daí, os encontros passaram a ser mais frequentes e o grupo hoje é formado por oito profissionais da Secretaria Municipal de Saúde de Natal. São duas enfermeiras, cinco agentes comunitários de saúde e um dentista.
Atualmente, após 13 anos de projeto, já aconteceram mais de 600 Tendas do Conto em diversas unidades de saúde. Além disso, o grupo já promoveu oficinas e vivências em outros estados, em fóruns de educação popular, movimentos de mulheres, encontros de saúde do trabalhador, etc. Destaca-se também a participação na formação universitária.
Um modelo de saúde mais amplo
O ato de buscar um objeto e lembrar-se das histórias - logo após o convite e antes do encontro propriamente dito - já desencadeia um processo importante de reposicionamento de si. O movimento desperta lembranças adormecidas e diálogos familiares. Depois, vem a ação de pensar em como contar a história e como se posicionar na frente de outras pessoas, às vezes desconhecidas, no dia do encontro.
- Os usuários elaboram uma nova concepção de saúde, menos focada no adoecimento, e mais direcionada para a produção de vida. Quando se preparam para contar a sua história elas se reinventam. São narradores e intérpretes de si mesmo, de sua própria história. Podem reposicionar-se diante de si mesmo e da vida - explana.
O projeto também fortalece a dimensão relacional do cuidado e ajuda a criar laços comunitários. Quando as pessoas falam em si, elas falam das suas condições de moradia, lazer, trabalho. Para Maria Jacqueline, isso é falar de saúde. E esse processo acontece tanto para os profissionais de saúde (que também participam da Tenda) como para os usuários.
- Estas histórias trazem um reencantamento ao trabalho de saúde. Elas fortalecem vínculos e nos aproximam. Além disso, o projeto coloca lado a lado profissionais de saúde, usuários e gestores, o que permite uma relação mais horizontal no Sistema Único de Saúde – explica.
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SAÚDE COM ARTE Qual conselho você daria para alguém que deseja iniciar um projeto de arte, cultura e saúde pelo Brasil? Ter paciência, insistir, resistir. Tecer redes com outras pessoas que também tenham interesse em desconstruir o que parece estabelecido. Não existe um caminho certo, por isso precisamos abrir veredas, reacender as esperanças. A arte é um antídoto para a dureza do cotidiano, uma possibilidade de emancipação para tantas formas de opressão. É preciso compreender que a arte transforma, traz leveza, nos faz voar. Lutar por isso vale muito a pena!
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Tenda do conto realizada em evento de Saúde em Brasília

Os objetos levados pelos usuários ilustram as histórias que irão compartilhar