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Saúde com Arte: Sons no SUS (SE)

Grupo da Secretaria de Saúde de Aracaju leva música para pacientes e profissionais da rede básica do município

Publicado: 02/03/2020 | 10h19
Última modificação: 06/10/2020 | 08h41

Na série “Saúde com Arte”, o Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS) divulga iniciativas espalhadas pelo Brasil que unam cultura, arte e saúde. No primeiro texto da série, conversamos com o musicoterapeuta Murilo Andrade, idealizador e coordenador do Sons no SUS, projeto da Secretaria de Saúde de Aracaju (SE).

Se você faz parte ou conhece algum grupo que dissemina cultura, saúde e arte pelo Brasil, envie um e-mail para nós: ccms@saude.gov.br

Fotos: Marcelle Cristinne

“Não é show, não é concerto, nem tampouco terapia. O projeto Sons no SUS vem trazendo harmonia”. Estas são as palavras de uma das canções cantadas pelo grupo e servem para definir o trabalho que os participantes realizam. Criado em 2012, o projeto hoje circula as 45 Unidades Básicas de Saúde do Município de Aracaju (SE), com apresentações musicais para os pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde. A ideia é não interromper o dia a dia das unidades, mas fazer uma intervenção durante a rotina de atendimento.

O Sons no SUS surgiu quando Murilo Andrade, então no Núcleo de Projetos Inovadores (Nuprin), da Prefeitura de Aracaju, pensava em como criar um programa para trabalhar a humanização e ambiência de unidades de urgência sem paralisar os serviços. A música foi pensada pelo potencial de entrar nos espaços - sem alterar a rotina do atendimento – e modificar o clima imediatamente. O projeto foi um sucesso e em pouco tempo se expandiu. Hoje o projeto dá prioridade para as Unidades Básicas de Saúde ligadas à Prefeitura.

- Quando as pessoas estão em uma unidade de saúde, elas estão tensas, cuidando de algum problema ou trabalhando na prevenção de uma doença. Quando o grupo começa a tocar começam a relaxar, se descontrair, rir... não é raro que chorem também. É uma liberação de afetos – explica o coordenador do Sons no SUS.

Curiosamente, Murilo especializou-se em Musicoterapia apenas depois do surgimento do projeto. O estudo serviu para dar base teórica para uma série de ações que já eram feitas de forma intuitiva. Um bom exemplo é a escolha do repertório do grupo. “Percebia que sempre voltávamos ao forró. Por mais que toquemos outros gêneros, o público sempre teve uma proximidade maior com o forró. Hoje entendo que é pela identidade sonoro-musical da cultura nordestina”, explica.

Ele destaca também o papel dos profissionais de saúde, que apoiam e reconhecem os benefícios do projeto. Eles não sabem o dia que o grupo vai aparecer, pois a combinação é feita apenas com o gerente da unidade. Dessa forma, os profissionais de saúde e usuários estão vivendo um dia normal de atendimento, quando chegam músicos tocando e cantando, o que modifica de imediato a dinâmica de tudo o que está acontecendo.

Novos caminhos

O sucesso do projeto levanta duas questões. A dúvida sobre a efetividade do método é facilmente respondida quando Murilo traz uma série de autores e artigos científicos que provam categoricamente como a música tem um efeito benéfico no cuidado em saúde. A outra questão é um pouco mais complicada... Como recusar convites para tocar em situações como recepções, coffee breaks e intervalos de eventos?

- Nosso trabalho é como um presente. Não é uma banda para tocar disputando atenção com outros momentos de lazer. É feito para a Dona Maria, pro Seu João, pro filhinho deles... Para a recepcionista, para o médico, pro enfermeiro que está circulando... – esclarece.

Além das interações musicais, o Sons no SUS atua em outras duas frentes. A primeira é chamada “Protagonismo Juvenil” e é realizada em parceria com o programa Saúde na Escola, da Secretaria de Saúde de Aracaju. Nela, o grupo usa um repertório musical específico para discutir temas como homofobia, misoginia e racismo com jovens estudantes do município. O objetivo é mostrar que essas questões sociais também fazem parte do cuidado em saúde.

Já as Oficinas de Sensações Musicais duram entre 2 e 3 horas e são direcionadas para os profissionais de saúde, para que possam pensar sobre as aproximações entre o fazer musical e o trabalho coletivo. Os participantes tocam instrumentos em grupo e aprendem noções básicas de ritmo “Também mostramos que a música é inerente ao ser humano, não precisa ser um profissional para tocar em grupo”, explica.

Além de Murilo Andrade, também fazem parte no Sons no SUS Samuel Silva, Michael Oliveira e Ellen Ribeiro.

SAÚDE COM ARTE

- Qual conselho você daria para alguém que deseja iniciar um projeto de arte, cultura e saúde pelo Brasil?

Seja apaixonado por aquilo que vai propor. Talvez seja esse “sangue no olho” o principal ingrediente para que alguma coisa consiga fluir. A partir desse prazer em fazer, precisamos ser estratégicos, inteligentes, juntar a arte com um pouco de ciência. Precisa ter um pouco da velha mistura entre teoria e prática, o que, nesse caso, é estar aberto para o sensível e para o artístico, mas também estar aberto para defender essa ideia com organização, objetivos, resultados e referenciais teóricos.
(Murilo Andrade)

 

 

Foto: Marcelle Cristinne

Foto: Marcelle Cristinne

Foto: Marcelle Cristinne

Foto: Marcelle Cristinne