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Saúde com Arte: PalhaSUS Horizontino (CE)

Projeto da Secretaria Municipal de Horizonte usa palhaçaria e cultura popular para engajar a população na luta contra o Aedes aegypti

Publicado: 25/11/2020 | 10h07
Última modificação: 07/03/2024 | 12h49

Na série “Saúde com Arte”, o Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS) divulga iniciativas espalhadas pelo Brasil que unam cultura, arte e saúde. No sétimo texto da série, conversamos com o agente de combate a endemias Fábio Sousa, da Secretaria Municipal de Saúde de Horizonte (CE), o idealizador e intérprete do PalhaSUS Horizontino. Nesse projeto, ele utiliza elementos clássicos da palhaçaria e da cultura popular para ensinar, de maneira lúdica e irreverente, sobre as formas de evitar o nascimento e a proliferação do Aedes aegypti, buscando engajar a população na luta contra o mosquito.  

Se você faz parte ou conhece algum grupo que dissemina cultura, saúde e arte pelo Brasil, envie um e-mail para nós: ccms@saude.gov.br 

por Priscila Campos (SAA/SE/MS)

O PalhaSUS Horizontino é um palhaço educador que tem o objetivo de informar por meio da alegria e, com isso, transformar o público em protagonista da própria saúde. Trocou o uniforme tradicional de agente de combate às endemias (ACE) pela fantasia de palhaço e visita diariamente casas, praças públicas, escolas, Unidades Básicas de Saúde (UBS), creches, dentre outros locais, levando informação para a população de Horizonte, no Ceará, por meio da educação popular em saúde.  

Desenvolve também o projeto “Alunos Mobilizadores” nas escolas públicas, onde incentiva a arte e a cultura por meio de oficinas de teatro e busca transformar os estudantes em multiplicadores do conhecimento sobre o combate ao Aedes, encontrando nessas crianças e adolescentes verdadeiros colaboradores na tarefa de proteger o município do mosquito e das doenças transmitidas por ele. 

A história  

Fábio Sousa atua há 16 anos como ACE no município de Horizonte (CE), cuja população estimada é de 68.529 pessoas (dados do IBGE em 2020), distribuídas em quatro distritos: Aningas, Dourado, Queimadas e a sede do município. A rotina tradicional de trabalho engloba ações de controle vetorial do Aedes aegypti nos imóveis, onde orienta os moradores sobre a forma de se prevenirem das doenças causadas pelo mosquito (dengue, zika, chikungunya e febre amarela). Nessas visitas, reforça sempre a necessidade de se evitar água parada e do cuidado com os depósitos desprotegidos, para que esses locais não virem criadouros do inseto (lugares onde eles depositam suas larvas).  

Depois de uma década de profissão, Fábio começou a se questionar sobre a técnica de abordagem dos ACEs. Ao seu ver, no decorrer dos anos, ela se tornara repetitiva e enfadonha, muitas vezes não alcançando o objetivo fundamental: o envolvimento das pessoas. Foi então que um encontro especial mudou a sua trajetória profissional e abriu a porta de Horizonte para o grande personagem da nossa história. 

“Em 2014, quando estive na IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica/Saúde da Família, em Brasília (DF), apresentando um trabalho de promoção à saúde, a presença de um palhaço durante todo o evento me possibilitou observar melhor aquele ser gentil, mágico e extremamente ridículo, mas que equilibrava com sutileza essa energia, gerando riso e envolvimento em todos que passavam em seu caminho” – conta Fábio.  

A figura descrita era o palhaço Al, do professor e médico Aldenildo Araújo de Moraes Fernandes Costeira, que desenvolve o projeto de extensão “PalhaSUS” na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desde 2011.  No projeto, o doutor Aldenildo ministra a Oficina do Riso, capacitação voltada para profissionais da saúde e de outros setores que buscam na energia cativante do palhaço uma forma pedagógica de alegria para atuarem em hospitais.  

“Nessa rápida passagem por Brasília, pude amadurecer antigas ideias que até então julgava serem impossíveis de realizar, ao observar como aqueles profissionais da saúde envolviam o público com os seus palhaços. Naquele instante nasceu o interesse de desenvolver um projeto semelhante de palhaçaria educativa em Horizonte. Eu me perguntava: será que a linguagem terapêutica do palhaço poderia me ajudar a atrair a atenção do público para o combate ao Aedes aegypti?” – relembra Fábio. 
 
No entanto, ele ainda teria que investir tempo e pesquisa no desenvolvimento do seu estado de palhaço, buscando em cursos e oficinas segurança cênica no aperfeiçoamento e composição deste trabalho artístico que surgiu a partir do contato com o PalhaSUS da Paraíba.  

De acordo com Fábio, o palhaço é um "ser gentil, mágico e extremamente ridículo, mas que equilibra com sutileza essa energia, gerando riso e envolvimento em todos que passam em seu caminho"

Atenção! Atenção!  
Respeitável público, apresento-lhes o PalhaSUS Horizontino! 

Fábio Sousa diz que quando alguém lhe pergunta como nasceu o PalhaSUS Horizontino, também conhecido como palhaço BiNhO, ele brinca, contando essa historinha:  

“Em abril de 2015, inicio mais um dia de trabalho em Horizonte sob o sol escaldante. No caminho para o distrito de Queimadas, levo uma topada e todo inseticida que havia na velha bolsa da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM) cai sobre a minha cabeça. Meio zonzo, tento ficar de pé. Solto um espirro, nariz irritado, redondo e avermelhado. A farda marrom, como num passe de mágica, transformou-se num bermudão colorido, terno e um chapéu. Não tinha como desfazer o encanto, a solução foi virar paiaço e informar as pessoas com o poder transformador do riso.” 

A partir de então, Fábio inicia uma nova fase em sua carreira e em sua vida. O PalhaSUS Horizontino vai para as ruas, praças, creches e escolas. Mas também invade as salas de espera das UBS, achando naqueles ambientes, muitas vezes apáticos e com grande aglomeração de pessoas ansiosas e doentes, o palco e a plateia perfeitos para os shows de BiNhO. É ali mesmo que deseja espalhar o riso, tão terapêutico. E é ali também que aproveita a alegria gerada por suas apresentações para alertar o povo de Horizonte, em linguagem popular, sobre a importância do combate ao Aedes aegypti e ensina o que fazer para evitar o nascimento e a proliferação desse mosquito, vetor da dengue, zika, chikungunya e febre amarela. 

Mas o nosso personagem não para por aí. Em 2019, após uma reflexão sobre a trajetória e o impacto do PalhaSUS Horizontino na vida da população local, Fábio percebeu que, por adotar a pedagogia do riso, havia momentos em que as pessoas o confundiam com um animador de eventos, apesar de ele sempre estimular o debate, o pensamento crítico e disseminar informação em saúde nas performances. Pensando em modificações na sua abordagem e visando expandir o olhar do público, decidiu ampliar o próprio trabalho. Nesse mesmo ano, criou o projeto “Alunos Mobilizadores”, um ciclo de oficinas teatrais focado em transformar os alunos das escolas públicas em multiplicadores da informação em saúde disseminada pelo PalhaSUS Horizontino. 

As oficinas promovem jogos teatrais inspirados no Teatro do Oprimido* e adaptados para a palhaçaria, proporcionando aos estudantes uma experiência de autoconhecimento e a oportunidade de terem um novo olhar sobre o teatro e a palhaçaria dentro da escola. Fábio explica que, a partir desse contato, foi possível inserir os alunos no processo de criação artística coletiva do PalhaSUS Horizontino. E ele frisa que, para além da educação em saúde e da formação de multiplicadores, a ideia é reforçar o papel libertário da arte na vida dessas crianças e adolescentes.
  
Em cada ciclo de oficinas, Fábio vai à escola e promove quatro encontros com o grupo de alunos participantes. Ao longo desses encontros, ministra aulas de teatro, ensina porque e como se deve evitar a proliferação do Aedes e treina os estudantes para uma apresentação final. Essa acontece durante a quarta oficina, quando eles se apresentam junto com o palhaço BiNhO em uma UBS, na própria escola ou nas ruas do bairro, levando informação em saúde aos moradores e contribuindo para o trabalho de conscientização sobre combate ao mosquito. 

A luta pela saúde com arte 

“Considero a participação popular das escolas e do público em geral fator positivo nessa forma alternativa de falar sobre saúde, em um território muitas vezes complexo e de difícil acesso. Porém, nesses seis anos de perseverança, algumas situações foram duramente enfrentadas, como a resistência da gestão municipal, que, no início do projeto, muitas vezes dificultou o seu desenvolvimento, não dando oportunidade de crescimento à iniciativa. No entanto, essa queda de braços durou pouco tempo, pois, com a adesão dos alunos e do núcleo de gestores da educação, nos últimos anos, a ideia do PalhaSUS Horizontino foi finalmente compreendida e acolhida tanto pela Secretaria Municipal de Saúde de Horizonte (CE), como por toda gestão pública do município” – desabafa, Fábio, sentindo-se vitorioso com as parcerias que construiu. 
 
E o reconhecimento veio também de outras formas. Em 2014, antes mesmo de virar palhaço, ele e o grupo de agentes de saúde de Horizonte ficaram em 11º lugar na IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica/Saúde da Família, em Brasília (DF), com o esquete teatral “O auto da camisinha”.  
Em 2017 foi agraciado com o troféu Pinion, em reconhecimento ao trabalho de educação em saúde desenvolvido em Horizonte. O troféu é símbolo da mostra nacional “Saúde é meu Lugar”, organizada pela Rede Brasileira de Escolas de Saúde Pública (RedEscola), a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) e o Ministério da Saúde (MS). 

Em março de 2018 foi agraciado com a Comenda 6 de Março, por sua dedicação à saúde da população Horizontina. Essa é a maior honraria do município e homenageia cidadãos que contribuíram para o desenvolvimento e crescimento de Horizonte. Em novembro do mesmo ano, recebeu a honra ao mérito do I Encontro Científico Cultural de Saberes e Práticas em Saúde de Horizonte. 

 

Fábio: "Considero a participação popular das escolas e do público em geral fator positivo nessa forma alternativa de falar sobre saúde"

E na pandemia? 

“Nessa pandemia de covid-19, tive que me reinventar, de cara limpa, mas com minha alma de palhaço sempre viva. Peguei um megafone e iniciei um trabalho de educação em saúde em locais em que estivessem acontecendo aglomerações, como nas filas da Caixa Econômica Federal, onde as pessoas estão indo muito, devido ao auxílio emergencial. Nessas ocasiões, explico sobre a importância do isolamento, da higiene e do uso consciente das máscaras” – relata Fábio. Devido à nova iniciativa do ACE, a Secretaria Municipal de Saúde de Horizonte disponibilizou EPIs - Equipamentos de Proteção Individual - para que ele distribuísse para as pessoas nesses locais. 

Além disso, Fábio vai com o megafone para os quarteirões onde são encontrados focos do mosquito da dengue e orienta os moradores sobre a importância e a necessidade de eliminar os criadouros do mosquito. Com as escolas fechadas, Fábio vem realizando algumas lives educativas com o PalhaSUS Horizontino em suas redes sociais (Instagram e Facebook). “Foi a forma que encontrei para o trabalho não parar” – finaliza o intérprete do palhaço BiNhO. 

Acompanhe o trabalho pelo Instagram no perfil @segueobinho, no Facebook em @Eusoubinho e no canal do YouTube @segueobinho

Qual conselho você daria para alguém que deseja iniciar um projeto de arte, cultura e saúde pelo Brasil? 

“Acredite nos seus sonhos, mantenha os pés no chão e também se permita ouvir” – Fábio Sousa. 

 
*O Teatro do Oprimido foi criado pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, nos anos 70, e, segundo Boal, pretende transformar o espectador em sujeito atuante, transformador da ação dramática que lhe é apresentada, de forma que ele mesmo, espectador, passe a protagonista e transformador da ação dramática. A ideia central é que o espectador ensaie a sua própria revolução sem delegar papéis aos personagens, desta forma, conscientizando-se da sua autonomia diante dos fatos cotidianos, indo em direção a sua real liberdade de ação, sendo todos “espectadores”, ou seja, atores e espectadores da ação dramática e da própria vida. A solidariedade entre semelhantes é a parte medular do Teatro do Oprimido. 
 
Fontes:  
www.horizonte.ce.gov.br  

www.arte.seed.pr.gov.br  

www.ibge.gov.br  

“Acredite nos seus sonhos, mantenha os pés no chão e também se permita ouvir” – Fábio Sousa.