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Saúde com Arte: Memorial Leprosaria Canafístula (CE)
Última modificação: 06/10/2020 | 08h43

Na série “Saúde com Arte”, o Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS) divulga iniciativas espalhadas pelo Brasil que unam cultura, arte e saúde. No terceiro texto da série, conversamos com Francisco de Assis Duarte Guedes, diretor geral do Centro de Convivência Antônio Diogo (CE), que abriga o Memorial “Leprosaria Canafístula”.
Imagine como era, até meados do século passado, receber um diagnóstico de hanseníase… Além do peso de precisar conviver com uma doença sem cura e de difícil tratamento, a pessoa ainda carregaria um pesado estigma: “leproso”. E não era só isso. Esse cidadão seria excluído do convívio social, teria seus pertences queimados e seria levado para uma colônia, os chamados leprosários, onde viveria completamente isolado de seus amigos e familiares. Se recusasse, poderia inclusive ser capturado, no que era chamado de política de internação compulsória, pelo Serviço de Profilaxia da Lepra, a chamada Polícia Sanitária.
O Memorial “Leprosaria Canafístula” busca exatamente aproximar dos seus visitantes esta experiência, que afetou milhares de brasileiros ao longo século XX. Parte integrante do Centro de Convivência Antônio Diogo - unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) localizada no município de Redenção (CE) - o Memorial reúne, em sete salas, notícias de jornais, documentos, fotos, móveis e objetos, além de relatos de antigos pacientes e material interativo sobre boa parte da história da hanseníase no Brasil.
- O nosso objetivo é resgatar a história institucional a partir de espaços temáticos e contextualizados, trazendo desde o período da internação compulsória até os dias atuais. Os documentos e objetos, enriquecidos com a memória das pessoas que vivem e convivem no centro, são destinados para um público amplo, desde profissionais de saúde que estudam a hanseníase, até acadêmicos e interessados na história do Brasil - explica Francisco de Assis Duarte Guedes, diretor geral do Centro de Convivência Antônio Diogo.
O surgimento do Memorial
Fundado em 1928, na época com o nome de Leprosaria Canafístula, o Centro de Convivência Antônio Diogo foi o primeiro leprosário do estado do Ceará, por isso abriga uma parte considerável da História da hanseníase no Brasil. Os documentos e objetos foram sendo guardados ao longo do tempo, mas existia um desejo de criar um museu pelo menos desde 2009, quando uma comissão de trabalho para a musealização do espaço foi definida em portaria. Foi em 2018, porém, que a ideia começou a se concretizar.
“Em agosto de 2018, a instituição completaria 90 anos e queríamos realizar uma comemoração especial. Decidimos então reunir o material que coletamos ao longo dos anos em uma mostra temática, que veio a se tornar o Memorial” explica Guedes, que destaca ainda a importância da chegada nesse período do antropólogo Rafael Antunes Almeida, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Outro fator fundamental, segundo Guedes, foi a atuação da Secretaria de Saúde do Ceará, que compreendeu a importância do projeto e investiu na sua execução.
Depois da inauguração, o Memorial “Leprosaria Canafístula” foi crescendo e hoje conta com sete salas que trazem desde recortes de jornais do período que antecedeu à fundação da Colônia até um espaço com objetos que contam as trajetórias da assistência à saúde, passando por uma Sala Sacra que conta os 70 anos em que o espaço foi administrado pela Igreja Católica. A perspectiva dos pacientes e familiares também é abarcada em uma sala, que traz fotografias, obras de arte e histórias daqueles que conviveram no espaço e que, por vezes, tiveram inclusive que abrir mão dos filhos que ali nasciam durante o período da política de internação compulsória. (veja a descrição completa das salas no link ao fim da matéria)
E para os que buscam uma experiência mais imersiva, há um espaço interativo, que busca proporcionar ao visitante uma experiência sensório-motora do processo de exclusão social, adoecimento, cura e ressocialização dos pacientes internados de maneira compulsória.
- As reações variam bastante de acordo com os interesses, já que nosso público é muito variado. Mas, de modo geral, as pessoas ficam muito encantadas com o Memorial, já que a maioria não conhecia a história que foi vivida em espaços como esse - destaca Guedes.
A História pode ajudar a pensar o presente
O Memorial mostra que a instituição passou por diversas transformações. Por décadas, após sua fundação, a hanseníase ainda não tinha cura e o espaço era um braço da política pública de internação compulsória, que tinha como principal foco proteger a sociedade dos riscos de contágio. No final da década de 60, com o aparecimento da poliquimioterapia, nasceu a perspectiva de cura e uma mudança radical nas políticas públicas para a doença.
Hoje o Centro de Convivência Antônio Diogo atua como um serviço ambulatorial de Dermatologia para os pacientes da unidade e da região, seguindo uma lógica humanizada no atendimento. Porém, as políticas de internação compulsória marcaram de forma profunda a história da instituição e dos residentes que ainda estão por lá. Para Guedes, a lembrança desse período, em que pessoas foram arrancadas do seu convívio social e de seus vínculos familiares, pode trazer lições importantes para o presente:
- Essa história pode nos ajudar a pensar nos tratamentos que propomos hoje para doenças que ainda não têm cura, como a dependência de drogas, por exemplo. Será que remover da pessoa os vínculos familiares, sociais e afetivos é mesmo o melhor caminho? O indivíduo precisa ser visto de modo biopsicossocial - afirma.
Entre as perspectivas para o futuro está a de ampliar a colaboração com instituições de ensino; hoje já existem quatro projetos com a Unilab e um com a Universidade Estadual do Ceará (UECE). Transformar o espaço num museu e integrar o Memorial na rota turística do Maciço de Baturité também estão entre os objetivos que a direção do Centro de Convivência Antônio Diogo e a Secretaria de Saúde do Ceará esperam alcançar até 2023.
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Qual conselho você daria para alguém que deseja iniciar um projeto de arte, cultura e saúde pelo Brasil? É preciso dar início, mesmo que seja aos poucos. Tínhamos o sonho de fazer um museu, que precisamos adiar algumas vezes, então começamos com a ideia de uma pequena mostra, que se tornou um memorial.... A cada ano a gente cresce mais, com a ajuda de pessoas qualificadas. Mesmo que o projeto seja pequeno, o mais importante é fazer com muita qualidade e credibilidade, com pessoas capacitadas envolvidas, que saibam o que estão fazendo. Somente a partir de planejamento e uma boa metodologia é que você vai gerar credibilidade para o público e outras instituições. |
DESCRIÇÃO DAS SETE SALAS DO MEMORIAL

O objetivo do memorial é resgatar a história institucional a partir de espaços temáticos e contextualizados, trazendo desde o período da internação compulsória até os dias atuais

Fundado em 1928, na época com o nome de Leprosaria Canafístula, o Centro de Convivência Antônio Diogo foi o primeiro leprosário do estado do Ceará

O Memorial reúne, em sete salas, notícias de jornais, documentos, fotos, móveis e objetos, além de relatos de antigos pacientes e material interativo