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Saúde com Arte: Clave de Sois (SC)

Programa da Secretaria da Saúde de Joinville utiliza a música como recurso terapêutico para usuários com transtornos mentais

Publicado: 30/06/2020 | 10h49
Última modificação: 06/10/2020 | 08h43

Na série “Saúde com Arte”, o Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS) divulga iniciativas espalhadas pelo Brasil que unam cultura, arte e saúde. No quarto texto da série, entrevistamos a terapeuta ocupacional Cristiane Regina Tavares, coordenadora do projeto Clave de Sois (SC), que oferece oficinas terapêuticas que utilizam a música como recurso aos usuários com transtornos mentais e/ou com necessidades decorrentes do uso de SPA (substância psicoativa) do Serviço Organizado de Inclusão Social (Sois), da Secretaria da Saúde de Joinville.

Fotos: Acervo Clave de Sois

A música é uma ferramenta poderosa porque atua simultaneamente em duas vias. Por um lado, ela tem a capacidade de modificar qualquer espaço em que está sendo tocada, transformando o humor das pessoas, deixando o ambiente mais leve e tirando, mesmo que por alguns instantes, a atenção dos problemas do cotidiano. Por outro, ela é prazerosa para quem toca e canta, produzindo saúde não só no momento da apresentação, mas também nos períodos de ensaio e aprendizado. Esse duplo benefício é um dos resultados do projeto Clave de Sois, formado por usuários com transtornos mentais atendidos pelo Serviço Organizado de Inclusão Social (Sois) da Secretaria da Saúde de Joinville (SC), e que realiza apresentações em unidades de saúde e outros espaços da cidade.

Com a coordenação da terapeuta ocupacional Cristiane Regina Tavares, o Clave de Sois no momento atende 12 usuários com transtornos psiquiátricos graves e/ou com necessidades decorrentes do uso de substâncias psicoativas. O objetivo é disponibilizar um espaço de protagonismo e inclusão social ao usuário como indivíduo ativo, participante e produtivo, estimulando a autonomia das habilidades e favorecendo a interação social, tendo a música como recurso terapêutico.

As atividades ocorrem numa oficina com ensaios semanais, dentro do Sois. Os participantes ensaiam o canto, repertório, gestual e presença de palco, além de terem uma escolha ativa sobre o figurino que será usado nas apresentações. A escolha do repertório, que também conta com a participação dos usuários é muito importante: apenas canções com mensagens de motivação, alegria e esperança.

“A condução da oficina deve ser feita com o objetivo de se salientar o caráter terapêutico da atividade e não tanto aspectos estéticos de uma apresentação artística, de maneira que não seja exercida cobrança sobre os usuários”, explica Cristiane, que acrescenta que é feito um trabalho contínuo de avaliação dos aspectos emocionais dos participantes. Caso haja a necessidade, eles podem ser encaminhados para tratamento clínico. Como a tensão pode alterar o quadro clínico, apenas usuários com condições clínicas estáveis podem se apresentar.

O grupo atua em diversas instituições de Joinville, mas o principal foco são unidades hospitalares. Sempre acompanhados pela terapeuta ocupacional, os membros do Clave de Sois cantam nos quartos, corredores e postos de enfermagem dos hospitais. De acordo com Cristiane, além dos benefícios que a música traz para quem ouve e para quem faz, ela também pode ter um importante papel social:

- Conforme o grupo vai se apresentando nos diversos locais da cidade e ganhando visibilidade, gradativamente os estigmas da doença mental vão sendo dissipados, fazendo com que os portadores destes transtornos possam ter uma vida pró ativa na sociedade, proporcionando assim uma inclusão mais efetiva - destaca.

O nascimento do Clave de Sois

-  A idéia surgiu observando usuários do serviço que apresentavam sentimentos de desvalia, incapacidade e rebaixamento de humor, porém demonstravam grande interesse pela música. Notava-se que lhes era comum a falta de sentido para vida. Então lendo algumas matérias sobre músicos e profissionais de diversas áreas que levavam música aos pacientes internados em hospitais, eu pensei: porque não os nossos usuários realizarem essas ações também? - lembra Cristiane.

Com a coordenação e iniciativa de Cristiane e a participação de um violonista voluntário, o Clave de Sois nasceu em outubro de 2015, atendendo a três usuários (que fazem parte até hoje do projeto). No começo, as apresentações do grupo eram realizadas em ações de promoção em saúde nas unidades básicas, eventos da saúde mental e em espaços como universidades, outras secretarias, casas de cultura, feiras e residências terapêuticas.

Foi em 2016, porém, que o projeto teve uma grande virada. Após receber o prêmio da categoria “Atenção Especializada” na 1ª Mostra de Experiências Exitosas, de Joinville, o Clave de Sois ganhou visibilidade, o que abriu as portas para apresentações em hospitais. O resultado foi tão bom que hoje o grupo já se apresentou em todos os hospitais públicos do município.

- O impacto da primeira visita ao hospital do município foi expressivo para os integrantes. Percorrer as alas de quarto em quarto, era para alguns enfrentar desafios, para outros era dar a volta por cima. Numa dessas visitas ao hospital houve a cobertura da mídia alcançando grande repercussão no município. Após essas matérias, começamos a ouvir relatos dos integrantes, de reconhecimento pela comunidade e familiares - conta Cristiane.

O poder da música

As pesquisas sobre o impacto do projeto na saúde dos usuários são muito positivas. Entre os benefícios que foram medidos estão a melhoria do humor, da autoestima e da autoconfiança dos participantes da oficina. Eles também apresentaram uma redução dos episódios de reagudização dos sintomas, do uso medicação e do número de consultas psiquiátricas. Nos usuários das unidades em que o grupo se apresenta também foram detectadas melhorias como a qualidade da estadia dos pacientes hospitalizados e, inclusive, uma percepção de avanços nos quadros clínicos.

 - Outro fator importante foi que os ensaios revelaram-se um exercício de convivência, com todas as vicissitudes que surgiram ao longo do trabalho. A oficina terapêutica, é sobretudo, um espaço de socialização em que o canto é meio de aproximação e integração social. Todos esses fatores influenciaram de forma benéfica nas relações interpessoais e intrapessoais - explica.

Cristiane ressalta também o aspecto inovador do Clave de Sois. A terapeuta ocupacional realizou extensa pesquisa de iniciativas semelhantes e não encontrou projetos que levassem pessoas com transtornos mentais para realizar apresentações musicais em unidades hospitalares. O que mostra que habitualmente estas pessoas estão acostumadas a receberem assistência e não realizar algo em benefício de outros; para ela, isso pode servir para transformar a visão da sociedade em relação aos transtornos mentais. 

- Existe ainda um longo caminho a ser percorrido, mas vários passos já foram dados pelo estabelecimento de uma relação mais ativa e expressiva dos usuários com transtornos mentais e a sociedade, favorecendo a desmistificação das doenças mentais - conclui.
 

Qual conselho você daria para alguém que deseja iniciar um projeto de arte, cultura e saúde pelo Brasil?

Como minha experiência é na área de saúde mental, o conselho que posso dar é direcionado à profissionais dessa área para que dêem oportunidade ao usuário/cliente/paciente de assumir a condição de cuidador de si mesmo (gradualmente, dentro de suas possibilidades), além de transcender ao papel de cuidar de outra pessoa (ações em instituições). Essa oportunidade pode acarretar num processo de reabilitação mais efetiva, criando um novo sentido para a vida e elevação da autoimagem.

 

 

O objetivo do projeto é disponibilizar um espaço de protagonismo e inclusão social ao usuário como indivíduo ativo, participante e produtivo.

O grupo atua em diversas instituições de Joinville, mas o principal foco são unidades hospitalares.

"Existe ainda um longo caminho a ser percorrido, mas vários passos já foram dados pelo estabelecimento de uma relação mais ativa e expressiva dos usuários com transtornos mentais e a sociedade, favorecendo a desmistificação das doenças mentais"