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As Conferências Internacionais de Higiene e a construção do Museu de Higiene no Brasil

por Alexandre Octavio Ribeiro de Carvalho (INCA)

Publicado: 19/07/2022 | 10h14
Última modificação: 19/07/2022 | 11h47
Dr. Carlos Seidl

Dr. Carlos Seidl

por Alexandre Octavio Ribeiro de Carvalho (Instituto Nacional de Câncer - INCA)

Das inúmeras Conferências Internacionais de Higiene – Saúde – realizadas entre o fim do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, três nutrem atenção histórica especial para o Brasil, presente em todas. 

A primeira, ocorrida em Berlim, em 1907, contou com a participação de Oswaldo Cruz, então a frente da Diretoria Geral de Saúde Pública. Cruz promoveu uma renovação na imagem do Brasil, ao comprovar aos participantes que um Brasil continental, ainda que periférico, conseguiu controlar, com gestão e ciência, as doenças tropicais - febre amarela, peste bubônica e malária. Essas, além de propiciar números expressivos de adoecimento e mortes, repeliam visitantes, impedindo a circulação de capital e mercadorias.

A reforma urbana patrocinada pelo presidente Rodrigues Alves, e executada pelo prefeito Pereira Passos e Oswaldo Cruz, ainda que autoritária, um “feito culminante de salvação pública pela ciência”, e a “maior lição de higiene experimental que o mundo já viu”, segundo noticiado à época, foi premiada com uma medalha de ouro pela Imperatriz da Alemanha ao Brasil, na representação do “saneador do Rio de Janeiro”. 

A segunda conferência, em 1909, instalada no bairro da Urca, Rio de Janeiro, utilizou as edificações utilizadas na Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil , em 1908, que revelou a nova fisionomia urbana da cidade, descrita pelo cronista João do Rio como a transformação da “cidade dos palácios” para a “cidade da maravilha” . 

A remodelação e saneamento da capital seriam presenciados por 1,5 mil congressistas procedentes do Haiti, Equador, Panamá, Peru, México, Venezuela, Paraguai, Chile, Uruguai e Argentina. O médico e escritor Afrânio Peixoto , no discurso inaugural, enalteceu o congresso como “muito mais uma festa ruidosa de inteligência que uma feira científica de utilidade humana”, ressaltando que “nós, brasileiros, oferecemos uma formosa exposição de higiene no Rio de Janeiro saneado”. 

A terceira conferência, realizada em 1911, em Dresden, Alemanha, testemunhou a evolução de um ciclo inaugurado em 1900, com a construção do Instituto Soroterápico Federal  para o combate à peste bubônica. Deste, o início da construção do castelo de Manguinhos, em 1905, e o envio da delegação do Instituto Oswaldo Cruz, homenagem em vida ao cientista que esteve presente à conferência, retornando ao Brasil antes de seu início , trazendo consigo fotografias do evento.

Dada a importância da política sanitária, o governo brasileiro construiu um pavilhão para a exposição onde seriam consagrados Oswaldo Cruz, pela biografia, e Carlos Chagas, devido as pesquisas sobre a transmissão do protozoário “tripanosoma Cruzi”, - outra homenagem a Oswaldo Cruz – pelo barbeiro, inseto que habitava em casebres edificados com madeira e barro. A doença seria imortalizada como “doença de chagas”, patologia típica do Brasil . 

O presidente da Conferência, Karl Lingner, utilizaria recursos do encontro para criar um museu de higiene, na Alemanha, o que chamaria atenção de Carlos Seidl, presidente da Academia Nacional de Medicina, que relatou que “chegara a tal ponto o entusiasmo pelo pavilhão brasileiro que chovem pedidos, verbais e por cartas, de museus, institutos científicos e estatísticos de diversos países do mundo afim de obterem alguns dos objetos expostos”.

O embaixador do Brasil em Berlim, Itiberê da Cunha, em resposta a Lingner, que relatou em carta a repercussão positiva pela comunidade científica do pavilhão brasileiro, expôs “Não duvido, sr. Presidente, que esta nova manifestação da alma brasileira e do nosso progresso moral contribuirá ainda mais a curiosidade e o desejo de conhecer e estudar melhor uma jovem nação longínqua, a qual caberá também uma boa parte na obra sublime da civilização e humanidade”. 

Seidl, nomeado para Direção-geral de Saúde Pública, em 1912, proporia a criação de um Museu de Higiene utilizando o material exposto na conferência de Dresden, delegando essa tarefa à Sampaio Vianna, chefe do Serviço Demográfico, e Alberto da Cunha, diretor do serviço de profilaxia da febre amarela, que funcionava na Praça da República, local onde foi inicialmente instalado o Museu. 

Com a inauguração da sede do Departamento Central da Saúde Pública, na Rua do Rezende, centro histórico do Rio de Janeiro, e dada a relevância para a formação dos quadros do DCSP e instrução de saúde da população, o Museu da Higiene foi para lá transferido, passando a funcionar ao lado da sala do diretor-geral, Carlos Seidl.

Referências:

Érica Mello e Souza, EDUCAÇÃO SANITÁRIA: orientações e práticas federais desde o Serviço de Propaganda e Educação Sanitária ao Serviço Nacional de Educação Sanitária (1920-1940), Dissertação de Mestrado, Fiocruz, 2012.

Pedro Cesco Litwin, MUSEOLOGIA DA SAÚDE: O PENSAMENTO MUSEOLÓGICO DECOLONIAL E A FUNÇÃO SOCIAL DOS MUSEUS NA SAÚDE PÚBLICA, X Seminário Nacional, Centro de Memória da Unicamp, 2021.

Jaime Larry Benchimol, Pereira Passos: um Haussmann tropical. A renovação urbana da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX; Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1992.

MUÑOZ, P. F.; RINKE, S. A América Latina no intercâmbio global do Museu Alemão de Higiene em Dresden (1919-1930). Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 14, n. 35, p. e0104, 2022. DOI: 10.5965/2175180314352022e0104. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180314352022e0104. Acesso em: 15 jul. 2022.

 

https://atom-mhn.museus.gov.br/index.php/exposicao-nacional-de-1908-no-rio-de-janeiro 
2 Barreto, Paulo, (João do Rio), Cinematografo (crônicas cariocas), Rio de Janeiro, ABL, 2009 (coleção Afrânio Peixoto) 
3 https://www.academia.org.br/academicos/afranio-peixoto/biografia
4 http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/pt/verbetes/instsorofed.htm
5 http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/pt/pdf/cruz.pdf
6 https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/42085/3/kropf-9788575413159.pdf