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Artistas da exposição Trajetórias do Cuidado refletem sobre memória, resistência e a força do SUS na pandemia

Obras de Carlos Erbs Júnior, José Roberto Bassul e Isadora Jochims compõem a nova mostra do CCMS

Publicado: 24/07/2025 | 10h42
Última modificação: 25/11/2025 | 17h57

Texto: Centro Cultural do Ministério da Saúde

Fotos: Rafael Nascimento/MS e Franklin Paz/MS
 

Produzida pelo Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS/CGDI/SAA/SE), a exposição Trajetórias do cuidado: a força do SUS diante da pandemia de covid-19 é um mergulho sensível e documental do enfrentamento da pandemia e traz o olhar dos fotógrafos Carlos Erbs Júnior e José Roberto Bassul e da médica e artista Isadora Jochims. A mostra está em cartaz no Espaço Cultural Dona Ivone Lara, localizado no prédio do Ministério da Saúde, em Brasília/DF.  

Com diferentes concepções, os artistas compartilham um ponto em comum: a urgência de registrar a história recente como forma de preservar a memória coletiva, homenagear os profissionais da saúde e reforçar a importância do Sistema Único de Saúde (SUS)

 

Da esquerda para a direita: Rodrigo Abreu, servidor do CCMS, Isadora Jochims, médica e artista, Fabíola Simoni, coordenadora do CCMS, Carlos Erbs Júnior, fotógrafo e artista visual, e Maria Resende Caetano, coordenadora substituta da Coordenação-Geral de Documentação e Informação (CGDI), durante a inauguração da exposição.

Entre silêncios e fachos de luz: a cidade como testemunha 

José Roberto Bassul inaugurava uma exposição autoral em Brasília na semana em que a pandemia foi decretada. “Apresentei uma série chamada Poéticas Mínimas, que falava da necessidade de buscar silêncios num mundo tão estridente, marcado pelo consumo e exacerbação de excessos, que acabam por predar a nossa vida. Era uma série de cores muito esmaecidas, uma série silenciosa. A mostra duraria um mês e meio, mas foi encerrada após uma semana por conta do decreto da pandemia”. 

O isolamento e o medo coletivo o levaram a reinterpretar a cidade - seu objeto de trabalho - como um espelho do desencanto, mas também da esperança. Suas fotografias presentes na exposição integram duas séries, Urbe e O sol só vem depois, esta última inspirada em um refrão da canção do rapper Emicida. “Percebi que esse verso traduzia visualmente o que eu vinha fazendo. Em todas as fotos há fachos de luz, marcando a esperança de que, de alguma forma, renasceríamos”, relembrou.  

Bassul reforça a importância do SUS no enfrentamento à crise sanitária, especialmente diante da negligência do governo da época. “Foi nossa salvação. Um sistema que, mesmo com deficiências, é invejado pelos países chamados de desenvolvidos”. Ao ter seu trabalho incluído na mostra, sentiu que sua arte podia dialogar com essa luz de resistência. “Entre os fachos de esperança, estava o próprio SUS, do qual o Brasil deve se orgulhar”. 

A arte como instrumento de cuidado e resistência 

Para a médica e artista Isadora Jochims, a arte entrou em sua vida como refúgio e se transformou em ferramenta de resistência. Depois de viver um burnout em 2016, passou a estudar aquarela e cerâmica. Já em 2020, sentiu a necessidade urgente de documentar o momento histórico. “A pandemia foi a virada de chave. Produzi uma série de aquarelas para documentar histórias que ouvia de profissionais de saúde e que vivenciei acompanhando os pacientes com covid-19. Era uma forma de enfrentar o negacionismo e dar sentido à minha prática artística”.  

Isadora participa da exposição com uma série de aquarelas e uma poesia que fez durante a pandemia. Ao ter suas obras incluídas na exposição, Isadora sentiu não só reconhecimento, mas também alívio e honra. “Estar aqui é a chance de fazer esse material circular, alcançar outras pessoas e cumprir sua função de memória. É também uma grande responsabilidade representar tantos profissionais de saúde que enfrentaram esse momento com coragem e dor”, afirmou.  

A médica e artista redescobriu no SUS uma rede pulsante de cuidado coletivo. “Percebi, de forma muito clara, que o SUS não é apenas uma estrutura, mas uma trama viva de afetos, resistências e reinvenções. Foi através dele que muitos vínculos foram possíveis, que vidas foram salvas, que histórias continuaram. Reforcei a certeza de que o SUS precisa ser defendido como um dos pilares fundamentais da democracia e da dignidade no Brasil”, enfatizou.  

Para ela, a exposição tem papel educativo, afetivo e político. “Lembrar é fundamental para que os erros não se repitam. Espero que o público se sinta tocado e compreenda que a arte também pode ser cuidado”, mencionou.  

O compromisso com a memória e a verdade 

Fotojornalista, Carlos Erbs Júnior relembra com clareza os dias em que o mundo parou: “Na época, fui para as ruas contar o que estávamos vivendo, enviando imagens para as principais agências do País”, relatou. 

Para ele, participar da exposição é uma forma de dar continuidade a essa missão. “Foi uma satisfação muito grande. Essa obra que construí não pertence a mim, e sim à humanidade. Sabia que havia um compromisso com a memória e a história do tempo presente, duas responsabilidades que, como jornalista e historiador, não poderia me furtar”.  

Erbs também destaca o papel vital do SUS e de seus profissionais, sobretudo em um cenário marcado por negacionismo e descaso. “Eles mostraram o quanto é importante ter um sistema de saúde pública sólido e universal”. Ao visitar a exposição, espera que o público leve consigo uma lição: “Que possamos aprender com os erros do passado e, se uma nova crise nos assolar, responder de maneira mais assertiva e humana”, concluiu. 

Visitante aprecia a exposição. Foto: Rafael Nascimento/MS

Uma travessia pela memória 

Inaugurada no dia 16 de maio, a exposição Trajetórias do cuidado: a força do SUS diante da pandemia de covid-19 convida o público a percorrer, em forma de travessia simbólica, os momentos mais marcantes da maior crise sanitária do século. A mostra preserva fragmentos da história recente e ecoa a importância de proteger não apenas o sistema público de saúde, mas também os laços humanos que nos sustentaram nos tempos mais difíceis. 

Confira mais fotos da exposição aqui.