Hospício de Pedro II

da construção à desconstrução

"Desejando assignalar o fausto dia de Minha Sagração com a creação de hum estabelecimento de publica beneficiencia: Hei por bem fundar hum Hospital destinado privativamente para o tratamento de Alienados, com a denominação de — Hospicio de Pedro Segundo..."

Trecho do decreto de criação do Hospício

O Hospício

O Palácio dos loucos

O local destinado aos alienados pelo Decreto do Imperador D. Pedro II recebeu a mesma atenção dedicada aos palácios. Houve esmero no projeto da construção em inúmeros detalhes, como pode ser comprovado em documento e fotografias da instituição. Em 3 de setembro de 1841, a pedra fundamental foi lançada e dois dias depois se iniciou a construção do edifício. As fontes de pesquisa que registram o processo de construção do Hospício de Pedro II mostram não só o investimento financeiro, mas principalmente, o social e médico na determinação da estrutura asilar. A figura do médico no projeto dos alienistas brasileiros era a que ocuparia o papel principal dentro da instituição.

O médico Cunha Lopes descreveu em artigo intitulado "Primeiro Hospital Psiquiátrico do Brasil", a construção e a trajetória do Hospício de Pedro II, que seria edificado na Chácara do Vigário Geral (na Praia da Santa Cecília) e mantido com o rendimento da Santa Casa da Misericórdia e por meio de doações, tanto de pessoas ligadas à administração pública como da sociedade em geral. Em 1846, José Ribeiro Monteiro ofereceu ao imperador o terreno da Chácara da Capela (Praia Vermelha) e outros contíguos para que metade fosse incorporada ao Hospício e outra ficasse à disposição do monarca que, em 14 de setembro, ordenou que a vontade do doador fosse realizada.

O Provedor da Santa Casa, José Clemente Pereira, por meio de correspondência, informou detalhadamente ao Conselheiro José Pedro Dias de Carvalho sobre a planta do edifício, os responsáveis pela obra, a nobreza da arquitetura, bem como as modificações em alguns de seus pavilhões.

O desenho da construção, segundo o artigo intitulado "A Psiquiatria e o Velho Hospício", de José Leme Lopes, foi baseado em um hospital criado pelos padres de São João de Deus (nas redondezas de Paris).

A planta baixa do Hospício foi concebida por Domingos Monteiro e formava um grande retângulo com quatro grandes pátios internos, separados por um corpo central da construção que distanciava as alas femininas e masculinas do asilo. O bloco central tinha uma entrada única. Três grandes portas conduziam ao átrio nobre, de onde se erguia uma escadaria monumental que levava diretamente à Capela São Pedro de Alcântara. No andar superior e à meia altura, a escadaria se bifurcava em dois lances que conduziam às chamadas "salas de respeito"¹.

No corpo central encontrava-se a farmácia no térreo e a capela no andar superior. Na opinião do professor José Leme Lopes , esta opção de construção não foi aleatória, refere-se à idéia da relação entre o material e o espiritual, ou seja, a capela em um plano mais elevado que o restante da estrutura, marcando a superioridade da religião em relação à ciência.

O Dr. Cunha Lopes descreveu em um artigo a suntuosidade do hospício. Ali o autor enumera as três sacadas centrais superiores feitas em mármore e sobrepostas de um outro lado ao frontão neo-clássico. Vinte janelas terminadas em forma de arco e dispostas em grupo a partir do centro delimitavam cada grupo por cantaria descoberta em um alinhamento que subia até o teto. O telhado foi disfarçado por uma platibanda, arrematada por estátuas de louça e grandes vasos ornamentais.

O pórtico era feito de granito com quatro colunas de pedra nobre. O primeiro pavimento era em estilo dórico e o segundo em estilo jônico. Ao alto, o tímpano reto com as armas imperiais enquadradas conferia ao exterior do edifício uma beleza sóbria, colocando-o entre os quatro principais exemplares de arquitetura imperial no Rio de Janeiro.

No interior do Hospício, o ponto alto era a escadaria, possivelmente idealizada por José Maria Jacinto Rabelo (que já havia concretizado a questão do abastecimento de água da cidade). Os corredores eram revestidos de azulejos azuis e brancos que davam uma perspectiva de profundidade e circundavam os pátios, com o intuito de arejar a construção.

Não foram poupadas medidas para o embelezamento do Hospício. Sete estátuas em mármore da Carrara representavam a ciência, a caridade, o Imperador, o provedor da Santa Casa José Clemente Pereira, São Pedro de Alcântara (santo padroeiro do Império, do País e da capela), Pinel e Esquirol.

Em 30 de novembro de 1852, o Imperador esteve presente à benção do edifício e à sagração da capela. Dias depois, o Hospício foi inaugurado com a celebração pontifical do Monsenhor Narciso da Silva Nepomuceno e com sermão do Frei Antonio do Coração de Maria. A orquestra teve a regência do maestro Francisco Manoel da Silva.²

Com o passar do tempo, a arquitetura luxuosa passou a ser alvo de debates em relação à estrutura física do prédio e sua capacidade terapêutica. A disciplina era um elemento presente e, de acordo com o discurso médico, necessária para normatizar os indivíduos que não se enquadravam no modelo social desejado. A Medicina entendia que promoveria uma adequação e uma submissão desses indivíduos unindo o controle e a punição, elementos necessários à sua adaptação ao meio social. Esse modelo arquitetônico é bem representado na figura do Panóptico.

¹ LOPES, José Leme. A psiquiatria e o velho hospício. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, Rio de Janeiro, v.14, n.1-2, p.117-130, jan-jun. 1965.

² LOPES, Cunha. Primeiro hospital psiquiátrico do Brasil. Arquivos Brasileiros de Neuriatria e Psiquiatria, [S.l.], 18 jul. 1935.

Esta foto em sépia e desbotada mostra vista para o Hospício. O prédio de dois pavimentos tem janelas em formato de arco lado a lado em toda a sua extensão frontal e lateral. Cercando o imóvel, há grades de metal e colunas altas. Dentro da propriedade, vê-se um jardim.

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