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Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

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JORNAL DO COMÉRCIO. Rio de Janeiro, dez. 1952.



Palacio da Praia Vermelha

Pedro Calmon


EM 8 de dezembro de 1852 abria as suas portas à ciência e ao infortúnio – numa solêne inauguração – o palácio da Praia Vermelha. Comemoramos o centenário desse admirável edifício, que, com diferente destino, pois a muito deixou de ser um hospital, porém com a mesma dignidade, erigido agora em séde de estudos da casa universitária, continua a ocupar naquelas margens do golfo o imenso espaço, reservado outrora pelo gênio dos homens à desventura e à reabilitação dos seus semelhantes. Não há em verdade no Rio de Janeiro prédio histórico de mais vasta e equilibradas proporções, de mais opulenta arquitectura, de mais nobre e severa beleza nas suas linhas clássicas, na majestade e na amplitude da sua massa monumental. Consideramo-lo, por esta perfeição, por esta grandeza e por esta importância, o melhor dos edifícios públicos da cidade: com a circunstancia de ser o mais expressivo dos sentimentos cultos e delicados da sociedade brasileira.

A HISTÓRIA do hospício de D. Pedro II começa com a decisão do provedor da Misericórdia, José Clemente Pereira, de construir para os alienados um solar que lembrasse a Salpetriêre ou Clarenton, num tranqüilo subúrbio da côrte, fora dos seus tumultos, junto ao manso mar, na paz profunda de uma chacara antiga, entre árvores de sombra e medicos generosos. Foi facil ao estadista principiar a obra, comprando a terra, obtendo para ela o patrocinio do Imperador-menino, que lhe dava o nome, angariando os primeiros donativos, reunidos em torno do seu sonho os artistas mais ilustres, fazendo-os trabalhar com fascinante entusiasmo. Extraordinaria, porém, foi a tenacidade que empregou em completa-la, sem permitir que se retardasse por falta de recursos, batendo à porta dos ricos, de sacola em punho, como um frade mendicante, sempre que não havia dinheiro para a féria dos operarios, num esforço sobrehumano, que os seus biografos realçam com encantadoras minúcias. Jamaih neste país se empreendeu com tanta audácia construção de tal porte; nem se tem outro exemplo de uma insistencia individual que tão triunfantemente vencesse os seus inumeraveis obstaculos. O fato é que, dez anos depois do lançamento da pedra fundamental, ali estava, com os seus onze mil metros quadrados de área coberta, cuja despesa passava de dois mil contos de réis ( em 1852! ) o hospício de D. Pedro II. A planta primitiva fôra do coronel Domingos Monteiro, arquiteto del-rei D. João VI e da Camara Municipal, autor do projeto do hospital central da misericórdia, que obedece aos mesmos canones estéticos. Deve-se entretanto a José Maria Jacinto Rebêlo e a Joaquim Candido Guillobel, discipulos diletos de Grand – Jean de Montigny (cuja arte imperial timbrou essa arquitetura com as suas insignias romanas) o ar versalhêsco e romantico. Este acrescentou-lhe à fachada conventual o propilêo vazado no granito moreno das pedreiras vizinhas, portico helenico que respira a serenidade dos templos eternos; e lhe ajuntou aquela capela austeramente concebida na sua simplicidade de basilica renascentista, com a graça acessória de escadarias fidalgas, em que se harmonizam a riqueza dos materiais  e o acêrto da perspectiva. O escultor alemão Fernando Pattrich somou a esses valores a sua estatuaria de marmore fino. Dele são os monumentos de D. Pedro II e de José Clemente, que ornam o salão de cerimonias, dramatica imagem de São Pedro de Alcantara, padroeiro da instituição, no seu nicho acadêmico, e – identificamos ultimamente – as duas estatuas, à entrada do palacio, simbolizam a sabedoria e a caridade.

CONTAM os jornais da época que a inauguração do hospício, a um século passado, constituiu um acontecimento na vida carioca. Descreveram-no, em páginas repassadas de emoção e aplauso, viajantes da altitude de Agassiz, Kidder e Fletcher. Maravilhosa mansão de insanos, berço da psiquiatria nacional, casa- mãe dessa medicina que tinha em Pinel e Esquirel os seus santos doutores, hospital que o bom senso dedicára aos que o perderam, num dos episodios mais eloqüentes da previdencia social, quando ainda não se chamava assim a cristã piedade, merece que o momento nos detenhamos a contemplar-lhe o significado, na paisagem cenogarfica do Rio de Janeiro. É uma joia inestimavel que resplandesce nesse colo de montanhas e florestas, em que ressalta a ardente formosura da cidade: realmente, primor de espírito e coração que se conserva – Deus louvado! – para honra do Brasil, e serviço dos seus ideais, sem que as injurias do tempo pudessem desfazer ou demolir o seu formidavel conjunto.


É hoje uma universidade.