Mostra virtual CCMS

Nise da Silveira

Vida e Obra

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Museu de Imagens do Inconsciente
O Legado de uma Vida

O afeto catalisador

Repetidas observações demonstraram que dificilmente qualquer tratamento será eficaz se o doente não tiver ao seu lado alguém que represente um ponto de apoio sobre o qual ele faça investimento afetivo.

Em qualquer oficina de terapêutica ocupacional este ponto de referência é a monitora ou o monitor. Num ateliê ou oficina, o monitor funciona como uma espécie de catalisador.

A volta à realidade depende em primeiro lugar do relacionamento confiante com alguém, relacionamento que se estenderá aos poucos a contatos com outras pessoas e com o ambiente.

 A fotografia exibe uma mulher, um homem e algumas pinturas. A mulher está em pé, na lateral esquerda da imagem, olhando para o homem, que está sentado, de costas, pintando, com a mão direita, em uma tela já bastante colorida. Atrás dela estão expostos alguns quadros com muitas cores.
Monitora e usuário em atividade no atual ateliê de pintura do museu.
A imagem, toda em tons de rosa, apresenta traços, em movimentos circulares, que se condensam no meio da tela, num rosa mais escuro. As bordas levam um tom mais claro. A tela mostra vários traços irregulares e multidirecionais. Foram utilizadas diversas cores, entretanto, os traços que mais se destacam são os de cor preta. O fundo da pintura tem um tom alaranjado.

Depois de já haver se reaproximado do mundo real, Fernando Diniz regride por motivos adversos: morte da mãe e suas conseqüências. Mergulha no espaço escuro. Durante longo período suas pinturas foram garatujas caóticas. Mas impressionava em Fernando a fixa crispação de angústia de sua face.

Dra. Nise tenta então a experiência de colocar uma monitora com a função exclusiva de permanecer a seu lado no ateliê.

A monitora não intervinha, não opinava sobre as pinturas. Apenas ficava ali, silenciosa, numa atitude de interesse e simpatia por qualquer coisa que ele fizesse, mesmo suas espessas garatujas.

Um mês depois de iniciada a experiência, Fernando começa a retirar do caos um novo mundo. Surge, no ângulo superior esquerdo do papel coberto de garatujas, uma forma surpreendente: "o penteado da japonesa", segundo diz Fernando.

Toda a série da japonesa caracteriza-se pela delicadeza do desenho e leveza das cores, em contraste com a maneira habitual de Fernando pintar - pinceladas espessas e cores fortes. Esta temática parecia estranha. Mas logo se esclareceu quando Fernando disse à monitora que ela parecia uma japonesa.

A pintura apresenta desenhos abstratos, em variados formatos, tais como círculos, espirais e mandalas, em tons de azul, verde e marrom.
Na tela estão muitos desenhos, em cores diversas, predominando o marrom, além do preto, branco, azul e vermelho. São utilizadas formas circulares ou espirais, e traços retos ou arredondados. Na parte inferior e central do quadro, há duas palavras ilegíveis, devido ao corte da imagem.

O relacionamento com a monitora levou Fernando a um contato muito melhor com o ambiente.

A pintura retrata uma paisagem colorida. À esquerda, dois retângulos altos com pequenos quadriláteros tomam toda a altura da imagem.  À direita, ao fundo, percebe-se  uma construção com três janelas e um coqueiro. Foram utilizados tons de marrom e azul e em toda a composição, e ainda detalhes na cor branca.

Não só catalisou a coordenação de funções psíquicas e a construção de síntese em torno da japonesa, como religou-o ao mundo externo. Nesse período pintou uma série de paisagens ao ar livre que refletem bem de perto o mundo real.