Emygdio de Barros
Emygdio nasceu em 1895, no estado do Rio de Janeiro. É o mais velho de dois filhos. Sua mãe sofria de distúrbios mentais; os filhos não a recordam senão isolada num quarto, excluída da vida familiar. Emygdio foi uma criança triste e tímida. Desde a infância revelou habilidade manual fora do comum, construindo com velhas caixas e pedaços de madeira brinquedos que surpreendiam a todos.
Na escola primária e no curso secundário foi sempre o primeiro da classe. Fez o curso técnico de torneiro mecânico e ingressou no Arsenal da Marinha. Destacando-se pela qualidade do seu trabalho, foi designado para fazer um curso de aperfeiçoamento na França, onde permaneceu durante dois anos. Logo após a sua volta ao Brasil (1924) deixou de freqüentar o emprego, passando a andar pelas ruas, sem destino, até tarde da noite, ou a entrar nas igrejas, onde ficava horas inteiras de pé, imóvel, olhos fixos. Foi então internado no velho Hospital da Praia Vermelha.
1969 (32 x 48 cm)
No início de 1944 foi transferido para o Hospital de Engenho de Dentro. Com o correr dos anos, sua atitude tornou-se de humilde aceitação da vida hospitalar. Ajudava na enfermaria em atividades de tipo doméstico, obedecendo sempre às ordens de enfermeiros e guardas. Verificou-se posteriormente que, muitas vezes, fazia trabalhos que excediam suas forças, como levar sobre a cabeça enormes trouxas de roupa suja para a lavanderia.
1970 (32 x 43 cm)
Em fevereiro de 1947, após 23 anos de internação, Emygdio começou a freqüentar o ateliê da Seção de Terapêutica Ocupacional. Apesar dos longos anos de internação em condições adversas e sem nunca haver pintado antes, seu trabalho atingiu desde o início alto nível artístico, revelando talento incomum. Mas sempre se esquivava às comunicações interpessoais. Espontaneamente não se dirigia a ninguém. Quando solicitado, respondia em termos breves e logo se fechava em seu silêncio.
1974 (36 x 55 cm)
Suas obras, desmentindo os preconceitos dominantes na psiquiatria, foram desde logo aceitas no mundo da arte. Mário Pedrosa e Abraham Palatnik, entre outros, visitavam-no freqüentemente. Mesmo quando saiu do hospital (1950) para residir com parentes em Teresópolis (RJ), continuaram a levar-lhe estímulo e material de pintura.
Em 1965 foi internado novamente. Depois, foi para uma clínica geriátrica, onde várias vezes recebeu a visita de funcionários do Museu que lhe levavam material de pintura. Mas ele se recusava terminantemente a pintar ali, dizendo que só o faria no ateliê do Museu."O importante não é só pintar, é ter idéias para pintar. Aqui na clínica eu não tenho idéias para pintar. Só no Museu." Voltou então a freqüentar regularmente o Museu de Imagens do Inconsciente, onde pintou até o seu falecimento, em 5 de maio de 1986, aos 92 anos. Deixou no acervo do Museu um legado de cerca de 3.300 obras.
sem data (32 x 48 cm)
"Emygdio de Barros é talvez o único gênio da pintura brasileira. Um gênio não é pior nem melhor que ninguém. Com respeito a ele não há termo de comparação: um gênio é uma solidão fulgurante, ultrapassa as medidas e as categorias. Não é possível defini-lo em função de escolas artísticas, vanguardas, estilos, metiê. Com relação a Emygdio podemos afirmar que raramente alguma obra pictórica foi capaz de nos transmitir a sensação de deslumbramento que recebemos de seus quadros. A pintura de Emygdio não reflete a experiência humana no nível da sociedade e da história. A ruptura com o mundo objetivo precipitou-o numa aventura abismal, em que o espírito parece quase perder-se na matéria do corpo, afundar-se no seu magma. E é daí, desse caos primordial, que ele regressa, trazendo à superfície onde habitamos, com suas imagens fosforescentes, os ecos de uma história outra, que é também do homem, mas que só a uns poucos é dado viver."
Ferreira Gullar