Carlos Pertuis
Óleo sobre papel - Sem data (36,5 x 55 cm)
Carlos nasceu no Rio de Janeiro, em 1910. De estrutura física frágil, psicologicamente imaturo, era muito apegado à mãe. Uma natureza sensível e religiosa. Tinha instrução primária, gostava de ler. Com a morte do pai, deixou de estudar e foi trabalhar numa fábrica de sapatos.
Certa manhã, raios de sol incidiram sobre um pequeno espelho de seu quarto: o brilho extraordinário deslumbrou-o, e surgiu diante de seus olhos numa visão cósmica - "O Planetário de Deus" -, segundo suas palavras. Gritou, chamou a família, queria que todos vissem também aquela maravilha que ele estava vendo.
Foi internado no mesmo dia no Hospital da Praia Vermelha, em setembro de 1939. Em 1946, começou a freqüentar o ateliê da Seção de Terapêutica Ocupacional, trazido por Almir Mavignier, que soube que ele guardava em caixas de sapatos na enfermaria os desenhos que fazia.
1975 (51 x 30 cm)
A visão do "Planetário de Deus" ficou para sempre gravada. Logo que teve oportunidade de pintar, oito anos depois da incandescente visão, Carlos, movido por forte necessidade interna, tentou representá-la sobre o papel com os meios precários de que dispunha, ele, um sapateiro que nunca havia pintado. O centro da imagem é uma flor de couro, símbolo do sol e da divindade. A visão de Carlos é uma espantosa mandala macrocósmica, uma imagem do universo.
Carlos amava o museu, o ateliê de pintura, a oficina de encadernação. Aí passava o dia inteiro, e sentia-se em sua casa. Consertava tacos soltos, verificava no fim do expediente se as janelas estavam fechadas. Produziu com intensidade cerca de 21 mil e 500 trabalhos - desenhos, pinturas, modelagens, xilogravuras, escritos - até sua morte em 1977.
No último período da vida de Carlos, suas pinturas giraram cada vez mais em torno do tema mítico do sol. Ressaltam, dentre estas imagens, figuras masculinas de grandes proporções providas de coroas e outros atributos divinos bastante próximos de descrições de Mithra, deus indo-persa, dadas por seus adeptos.
Mithra é um deus solar e herói, cujo mito narra a dolorosa procura da consciência que o homem de todos os tempos vem representando sob mil faces.
Quatro meses antes de sua morte configura a barca do sol, presente em numerosos mitos.
Lápis cera sobre papel - 1976 (33 x 48 cm)
"A face do sol é serena e triste. Ele vai navegar na noite e lutar contra os monstros que incessantemente esforçam-se por impedir seu renascimento. Através de longos percursos na escuridão, tal como aconteceu a Carlos, surge, como um fio condutor, fio tênue que às vezes parece ter-se partido e ter sido tragado pelo abismo, o "Princípio de Horus", isto é, o impulso para emergir das trevas originais até alcançar a experiência essencial da tomada de consciência."
Nise da Silveira