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Código de acesso: PR SOR 02291 [1-2]

ANNAES DE MEDICINA BRASILIENSE. Rio de Janeiro: Jornal da Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, n.5, ano 2, out. 1845.



Necessidade de crear a adoptar neste paiz huma medicina brasileira.


Um medico belga, o eruditissimo Dr. Broeckx, queixa-se e lastima que quando os medicos seus patricios tratam das causas, symptomas, e tratamento das molestias proprias do clima do seu paiz, não fazem senão apoiar-se sobre a auctoridade dos medicos estranhos ao mesmo paiz e aos seus costumes (1) . Quanto faz isto um escriptor europeu para qual os estranhos são tambem europeus, e filhos de paizes pouco distantes, e com pouca differença de clima, com quanta maior razão igual queixa e lástima não poderá fazer-se no Brasil, vendo-se o dominio absoluto da medicina estrangeira, e o credito e culto quasi exclusivos de que gozam entre nós as doutrinas e observações dos escriptores da Europa, e principalmente da França? É innegavel que em tudo e por tudo os nossos medicos não são em geral senão imitadores e sectarios dos de Paris, cujas obras são quasi a única guia delles no exercicio da arte, assim como o foram e são dos seus estudos nas escolas e fóra dellas. Examinemos entretanto a differença do clima dos dous paizes, a das causas morbificas locaes, a dos habitantes, a da natureza, indole e marcha das molestias dos mesmos: ella é imensa. Ora, sabemos que a mais pequena differença em tudo isto deve modificar muito a therapeutica a ponto tal que dessa modificação depende o bom ou máu exito da cura: e o illustre Giacomini nos diz que as circunstancias locaes, e a mança indole dos habitantes de Veneza estabelecem tal differença para com os da vizinha Padua, que nesta cidade mais não bastarão as sangrias que erm sufficientes naquella (2) . Se o pequeno numero de legoas que há de Padua a Veneza, tanta influencia exercia sobre pratica medica de tão illustre escriptor, qual e quanta differença não deverá estabelecer na dos medicos do Brasil para com a dos da Europa, a immensa distancia que há de hum paiz ao outro collocados debaixo de zonas tão differentes? Não salta aos olhos da mais limitada intelligencia a necessidade, que ha, de huma medicina especial e differente da dos climas europeus, e de huma differnça nessa medicina nos varios pontos de hum Imperio tão vasto, que desde o mais alto calor do equador extende-se ás regiões frias que confinam com o Rio da Prata? Poderão por ventura servir de unica guia ao medico brasileiro os codigos medicinaes da Europa os mais bem escriptos, os quadros das enfermidades d’aquelle paiz delineados com a maior exactidão possivel, se aos preceitos e conhecimentos que elles nos subministram não se associar o estudo particular das enfermidades do paiz, e o da observações dos nossos praticos mais abalizados?


Deve por tanto ser impossível que as regras e preceitos dictados para exercer com acerto e vantagem a arte salutar na Europa possam servir para do mesmo modo exercel-a no Brasil. Apezar disso é com essas regras, e esses preceitos que se cura em geral entre nós, e são aquelles que os dictam as auctoridades mais acreditadas, e havidas como dignas da maior attenção desdenhando-se, e olhando-se até com desprezo e ar de mofa todo e qualquer escripto e observação dos nossos práticos: e em quando se cuida em enriquecer nossas bibliothecas com as obras dos medicos do antigo mundo, pouco e nada se cuida em estudar as moléstias do paiz, e em formar uma collecção de factos e preceitos de medicina brasileira. Qual possa e deva ser o resultado disto é facil prevel-o a quem seriamente reflectir sobre esta circunstancia tão deploravel. Nós que sobre ella havemos bem meditado, e que há tantos annos temos sido testemunha ocular do que no paiz se tem passado a este respeito, a considerarmos como uma das causas mais devastadoras da população do Brasil, e cremos que, se lhe attribuirmos pelo menos a quarta parte da mortandade prematura do paiz, não exageremos muito os seus damnos. Com effeito, nada mais perigoso e prejudicial na medicina do que a sciencia erronea ou mal applicada: peior é ella que a ignorancia, porque esta, andando ás apalpadellas, ás vezes póde acertar por um acaso, mas o erro nunca: alêm disso a sciencia erronea, forte em suas convicções, é mais affouta e emprehendedora, e faz uma regra das proprias illusões e proprios erros que nunca podem ser bem succedidos, em quanto que a ignorancia e o empirismo a fazem só das suas observações, cujas applicações ás vezes podem ser felizes. Quaes e quantas victimas não causaram em outro tempo os preceitos da medicina Browniana, applicados ao tractamento das nossas moléstias com o seu methodo incendiario, e em seguida os da medicina intitulada physiologica, sobre tudo nas nossas febres, e principalmente nas epidemicas? Já em nosso Relatorio sobre a Secção Medica da Sociedade Academica de Nantes tivemos occasião de notar a varia indole que estas representam em diversos tempos, e a grande mudança que houve a este respeito nos fins da 3ª década do seculo actual, depois de haver reinado por alguns annos uma constituição predominantemente inflammatoria, que offerecera occasião á doutrina physiologica de assignalar-se e acreditar-se entre nós com varias curas mui felizes, vantagens que depois foram caramente pagas, e que tantas victimas custaram no principio das epidemias de Macacú e Magé, em quanto a Sociedade de Medicina, com a publicação do seu Parecer sobre essa epidemia, não abriu os olhos dos nossos praticos, entre os quaes só vogavam as doutrinas do Hospital de Val de Grace, e pouco lido e conhecido era o bello tractado sobre as febres do Rio de Janeiro, do illustre Mello Franco. Esse trabalho da nascente Sociedade, que mereceu os elogios do Barão Larrey em uma das Sociedades de Medicina de Paris, exerceu sobre a medicina do paiz uma salutar influencia, e póde-se affirmar que só depois delle, e de outros que se lhe seguirão no seio da Sociedade e da Academia Imperial de Medicina, o tractamento das nossas febres tem sido mais feliz, e mais apropriado ás circunstancias do nosso clima e da nossa população.


Basta folhear os differentes jornaes da Sociedade, e da Academia Medicina, e a obra Sr. Dr. Sigaud, sobre o clima e as molestias deste paiz, para ver-se quanto esta instituição tem concorrido com suas discussões para illustrar este ponto e para modifficar as idéas absolutas vindas de fóra, e pelos incautos tão mal applicadas a nossa therapeutica. Com tudo é preciso confessar que a importancia desses trabalhos, e a necessidade da criação e adopção de uma brasileira, não são ainda tão profundamente sentidas entre a maioria dos nossos praticos, nem no seio da população, a qual por antigo habito, costuma olhar para a boca da nossa barra, como para a porta de tudo o que há de melhor, que possa ver felicital-a, considerando a Europa como a única fonte das melhores doutrinas e dos melhores estudos. Sem querermos diminuir em nada a consideração que nos deve merecer este berço e grandes fontes das sciencias, toda cautela nos é precisa, a fim de não fazermos para nós dos seus conhecidos e doutrinas uma espécie de postiço taje de moda que devemos adoptar sem reflexão, e modificação alguma de nossa parte. Vote-se de embora toda a consideração e estudo aos escriptos que nos vem da Europa, e toda a veneração a seus illustres auctores; mas ocupemo-nos uma vez tambem em termos outros que sejam nossos e que esses sabios tenham occasião de ler e conceituar assim como nós fazemos para com os delles. Prevemos o bom alheio, mas apreciemos também o nosso, porque tambem entre nós o há, assim como o talento capazes de produzil-o, uma vez que sejam devidamente alentados. É verdade que por hora pouco possuimos de nosso, e que como tal possa ser apontado; mas é inegavel que se outro fosse o comportamento geral para com aquelles que alguma cousa fazem, e se o trabalho scientifico valesse entre nós, ao menos a vantagem de um maior credito na sociedade para seus aultores, e maior seria o numero de seus trasbalhadores, maior o numero da importância dos trabalhos. Esta verdade é incotestavel, e ninguém deixará de a sentir e conhecer: porém facilmente o espírito de crítica irá buscar ou collocar maliciosamente a causa disso fóra do seu lugar, e primitiva fonte: mas a este respeito deixem-se os nossos medicos de increpações e accusações fóra do circulo da sua classe: elles a devem proucurar no meio de si. Quando elles forem os primeiros a estimar devidamente as producções e trabalhos dos seus collegas no paiz, e a conceituar e acatar os seus auctores, verão logo as outras classes, e as auctoridades publicas praticar o mesmo, e criar-se assim entre nos uma litteratura medica, e uma medicina do paiz com vantagem para este, e para toda a classe medica.


l. V: De - Simone.