Periódicos
Biblioteca Nacional
Código: I – 275, 01, 01
REVISTA MÉDICA FLUMINENSE. Rio de Janeiro: Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, v1, n.1, abr. 1835.
Desd'a descoberta do Brasil até a emigraçaõ de D. Joaõ VI a Medicina, que se exercia, era puramente Ingleza, naõ obstante os Medicos pertencerem pela maior parte à Escola de Coimbra. A revoluçaõ, que Portugal soffreo em todos os seus habitos pela influencia de Napoleaõ, á cuja memoria o Brasil tanto deve, nos trouxe o gosto da litteratura franceza e conseqüentemente o das suas Artes e Sciencias. Entaõ fundou-se a Escola Medico-Cirurgica do Rio de Janeiro e Bahia, e ahi pelos Regulamento foraõ adoptados por compendios os Classicos Francezes. Desd'essa epoca até hoje, com mui ligeiras modificações; a nossa Medicina tem sido a Medicina Franceza.
A Escola, que influio na França até a epoca do domínio da Escola da Medicina physiologica, foi a de Pinel: essa foi taõ bem a nossa desd'a creação da Escola Medico-Cirurgica ate 1824, não obstante os exforços, que se fizeraõ para influir a de Cullen.
Em 1818 appareceo aqui a Doctrina Medica de Mr. Broussais, ou analyse dos Typhus de Hernandez e as suas Phlegmasias chronicas: em 1821 (*) o seu exame das Doctrinas Médicas geralmente adoptadas.
Houve então occaziaõ, em entretenimento medico com o nosso honrado, e digno Collega o Sr. Oct. M. da Roza, de fallar das obras de Mr. Broussais, que haviamos lido, e cujas theorias apreciavamos: o Sr. Roza não tinha então conhecimento de taes obras, mas, cedendolh'as nós, elle teve occazião de manifestar suas idéas à respeito, as quaes não forão favoráveis ao reformador. A nossa Escolla era Pinelianna, e nós naõ podiamos supportar nenhuma critica á obras do venerando Pinel, sempre digno da nossa consideraçaõ.
Naõ se tome que foi a esmo que havemos referido estas circunstancias relativas á época do apparecimenro das obras de Mr. Broussais no Rio de Janeiro, e ao conhecimento da nova Doctrina Medica. Foi o brio nacional offendido, foi o menoscabo, com que fomos tratados na 3ª edição do Exame das Doctrinas Medicas, que nos obrigáraõ, á nosso pezar, á pôr Mr. Broussais à caminho, e fazer-lhe sentir que foi mal guiado por quem quer, que teve necessidade de fazel-o acreditar que os Srs. Cuissart e Sigaud, cujo saber e talentos mais que ninguem apreciamos, tinhaõ sido aqui os mestres da Medicina physiologica, ou espelhos de Mr. Broussais; e que os Medicos Brasileiros eraõ um pouco menos que os Officiérs de Santé da Martinica ou Guadeloupe. Mr. Broussais pode ficar certo de que os portos do Brasil saõ assaz francos, e que nenhum obstaculo se oppõe á entrada de suas obras ou outras, e que os Srs. Cuissart e Sigaud, ou quaesquer outros Medicos extrangeiros, que exercem Medicina no Rio de Janeiro, taõ instruidos, como saõ, em nada excedem aos Medicos do paiz, seja formado nas Escolas do Brasil, seja na do extrangeiro. Os Medicos do Brasil devem muito á França: elles tem recebido della toda sua instrucção medica: mas nenhuma devem á esses dignos Collegas, apreciados por elles debaixo de muitas relações.
Não obstante o conhecimento, que os Médicos Brasileiros tem, das doctrinas de Mr. Broussais; elles naõ saõ com tudo seus cegos partidistas. Mesmo os Srs. Cuissart e Sigaud, que Mr. Broussais suppõe serem aqui os echos de suas doctrinas, já não são tão broussaiistas como o foraõ. Este ultimo assegurou-nos que, depois que deixou de ser tão antiphlogistico (saõ suas expressões) perdia menos doentes!
Portanto fique Mr. Broussais na certeza que, posto que ninguem lhe possa recusar os bem merecidos louros por ser o primeiro, que encarou as infermidades debaixo de hum ponto de vista o mais aproximado á rasaõ, e á observaçaõ, o seu systema exclusivo em parte alguma do mundo pode ser recebido, como elle crê: se damos attençaõ ao que se tem passado entre nós, depois da propagação da nova Doctrina, veremos que o charlatanismo tem imperado mais do que nunca, pela crença, em que se está geralmente, de que as moléstias consistem todas em inflammações, que serão sempre combatidas pelos antiphlogisticos. Assim des que apparece hum incommodo qualquer, huma febre ephemera, huma suppressaõ de transpiração, mesmo sem o conselho dos Medicos, lança se logo maõ de sanguesugas, de água d'althéa, de gomma &c, accrescentando se que tanto faria o Medico! Certamente nada he mais facil do que crer-se que o órgão rei he sempre affectado primitiva, ou consecutivamente, e que todas as moléstias cedem, ou devem ceder às applicações de sanguesugas, e aos emollientes dirigidos contra esta entranha.
Tendo ditto que o Brasil naõ tem huma Medicina sua, he desnecessario entrar em huma analyse minucioza da pratica da Medicina entre nós: como há Medicos de Escolas diversas, cada hum he mais ou menos o representante de sua Escola. Entre tanto he preciso que os Médicos Brasileiros se congreguem, que trabalhem todos de commum accordo á fim de que hum dia se possa também conhecer a Medicina Brazileira, principalmente tendo elles melhor que nenhuns outros taõ vasto campo á descobertas interessantissimas á materia Medica. E de mais he tempo de irmos realisando a nossa independência, e de irmos fazendo crêr aos que moraõ longe de nós, que os colonos de Portugal fazem realmente huma Nação livre e independente, que com alguma idade mais será tanto, como as outras, que tem hum nome, hum caracter, e hum sentimento, que lhes pertencem, e que as distinguem.