Periódicos


Biblioteca Nacional

Seção de Obras Raras

Código de acesso: PR – SOR 3804 – 3817

HOSPITAL DOS LOUCOS. Rio de Janeiro, n.2, p. 1-2, mar. 1862.




Semana do Dr. Ventosa


Os crimes as asneiras Conte a vida quem chegas

A impudícia seu rival, Aos umbres do hospital;

Tudo quanto fôr loucura Cura assim póde obter

Tem entrada no hospital. Fallando franco, leal.


Folha barata. Mil réis por mez,

Tão papafina! Meu assignante,

Só não assigna Pague sonante,

Quem é sovina. Seja constante!


Rio de Janeiro, 18 de Fevereiro de 1862.



Semana do Dr. Ventosa


Acredita amigo leitor, que seriamos perfeitamente cordatos, bons e virtuosos, se o nosso cerebro não fosse sujeito á esse desarranjo moral a que se chama loucura.


Molla real de quanta atrocidade se commette, é ella que nos induz ao vicio, arma do braço do assassino, guia os unheiros do larapio, maneja o martello do moedeiro falso, faz empunhar a taça das bachanaes, prostitue o thalamo, prevarica as autoridades, produz a covardia, a deslealdade, o perjurio, a devassidão, a tratantice, os namoricos atoleimados, o charlatanismo, o cynismo, a gula, a ira, a preguiça, a inveja, a avareza, a soberba, a luxuria!


E’ da loucura que provém quanta asneira se diz e se faz; quanta velhacada se pratica, quantas mentiras e calumnias se inventam; tudo quanto em fim exercer a humanidade contra os preceitos divinos e sociaes!


Já se vê que a loucura é o nosso mal das vinhas, e a doença dos nossos cafésaes, é o privilegio exclusivo para o arbitrio e o bilhete de entrada para o theatro das miserias, para as diabruras, para tudo o que é máo, e prohibido!


Portanto, leitor, sem a loucura, este mundo seria um Eden; Eva não offertaria a Adão o pomo vedado, Adão não o comeria, a serpente mesmo não os seduziria á desobediencia.


Todo o nosso mal provém desse arranjo cerebral.


E’ pois de necessidade visivel e palpitante, combatermo-lo com todas as forças á nossa disposição, para que livre a humanidade desse flagello devastador, adquira os fóros de sensata, e goze as delicias da virtude.


Para esse fim fundamos um vastissimo hospital na ilha de S. Manduca, (onde quem entra não trabuca) para onde conduziremos todo aquelle que commetter desde a mais pequena asneira até o maior crime.


São nossos medicos os Illms. Srs. Drs. Ventosa, Sanguisuga, Bacalhao, e Visicatorio. Enfermeiros os terriveis Srs. Furibundo, Meia- noite, Lobishome, Mão de ferro, Pulso de aço, Mata – Esfola, Tremetudo e Sacatrapo.


Pharmaceutico o Sr. Dengo- Molengo. Enfermeiro – mór o Sr. Espanta – gatos. Cem praticantes de cirurgia, e duzentos ajudantes de enfermeiros. Estão contractados mais cincoenta medicos e mais dous boticarios com os respectivos caixeiros.


Cremos que com este pessoal, e com o mais que fôr preciso á proporção que crescer o numero dos doudos, poderemos trabalhar para o conseguimento de nosso d’ esideratum.


Em summa, amigo leitor, acredita que a empresa não se poupa á despezas, e que o hospital estará aberto constantemente.


Livra-te delle amigo, pois não será poupado se enfermares contra a nossa expectativa.


Sabes agora o que pretendemos, ajuda-nos tambem no que precisamos.


Marchemos de mãos dadas á posteridade, sem temor de naufragios, sem receio de tempestade!


A colheita será grande!


Caprichemos!


O administrador do hospital, José Clemente Mangueira.

— Amigo José Clemente,

Me receba, sou doente

D’uma loucura cruel!

Acommetto a desvalida

Mulher pobre e insoffrida

De ser constante e fiel!


Collega sou em diploma

Do doutor que hoje assoma

Desta semana ao bastão;

Conheço o Dr. Ventosa,

Aquella alma famosa,

Aquelle bom coração!


— Pois olhe, meu caro, o Dr. Ventosa não é para graças! E se a sua loucura é do genero daquellas que exigem camisola e rebemque, póde contar que o recommendará ao Sr. Espanta – gatos, muito digno enfermeiro – mór deste hospital.


— Meu caro administrador

Meu salva – guarda e amor.

Meu santelmo peregrino!

Amei-a, morro por ella,

Tão linda, formosa e bella

Como um astro assaz divino!


E então? Não estou mettido com um doudo varrido?! Meu caro, este hospital é todo seu , e póde obedecendo ao programma, obter um optimo cubiculo.

— O programma! O programma!

— Consiste, á respeito dos loucos, em contar fielmente a sua loucura; mas em prosa, meu caro, está bem visto.

— Sr. administrador, travei amizade com um pobre moço compositor, e creio que do Jornal do Commercio, guiado por um pensamento negro, que dia e noite me martellava o cerebro. Era elle casado com uma mulher linda, bella, como o que ha de mais bello procreado pela natureza, e cujos encantos fizeram-me andar a cabeça á roda, e perder completamente o pudor, o discernimento, os fóros de homem de bem.


Seduzi-a, roubei-a á seu marido, e ella miserrima e incauta, deixando o homem a que devia de amar, honrar e respeitar, veio para minha companhia abandonando até a seu pobre filhinho!


O marido julgou que por sua dignidade não devia dar um só passo contra a desleal; deixou-lhe por castigo a prostituição e o epithelo de meretriz estampado sobre essa fronte juvenil e infame!


Dedicou-se pois á criação desse ente idolatrado, que lhe restava; amou com dobradas forças o misero filhinho, viveu por elle!


Mas a loucura, que em mim já espalhará raizes profundas, inspirou-me um pensamento diabolico! Projectei dilacerar ainda esse nobre coração já tão martyrisado e para cumprir meu intento infernal, — alleguei em juizo competente ser elle pobre, encapaz de poder sustentar essa creaturinha; e por despacho, obtive a separação! Arranquei-lhe o unico consolo, a unica esperança, a corda de sua alma, e que só sabia-lhe adormecer por instantes dôres tão atrozes!


O infeliz não resistio á esta nova crueldade, cahio em um leito de angustia e de miserias, retorcendo-se na dôr e no desespero!


Ah! e o que seria delle si a caridade não inspirasse seus collegas?!


Elles se cotizaram, estabeleceram-lhe uma pensão, deram-lhe medico e botica, enfermeiro e bom tratamento. Mas a doença affectava o espirito, e o corpo partilhando desse mal, alquebrava-se e desfallecia apezar dos cuidados e dos esforços da medicina! Para uma affecção moral. Produzida por taes desgostos, não ha cura!


Foi debalde que os compositores alugaram-lhe uma chacara para mudar de ares, foi debalde o emprego de mil cuidados!


O infeliz sucumbio, longe da esposa, e do filho a quem amava ternamente!


Ainda os collegas colizaram-se para o enterro; fizeram-no decente,e a fatalidade conduzio o prestigio funerario que constava de vinte e seis carros, pela rua onde eu me achava em uma de suas casas com a misera em meus braços!


Ao senti-lo, soltamos uma gargalhada, e nos engolfamos nas delicias de nosso descaramento e irreligiosidade!


Eis a loucura que me traz á olha de S. Manduca, e ás portas deste hospital!


— Meu caro... Meu caro!...

— Sr. José Clemente Mangueira!!

— Socegue..., Olá, Sr. Espanta – gatos! Conduza este louco ao Dr. Ventosa, e depois ao cubiculo n. 1.

— Fez-se justiça!


O maluco ficou no seu cubiculo, e o administrador teve de haver-se com outro, que lhe perguntou: 


— Não é este o Hospital dos Loucos.

— Sim senhor.


E como voltasse o senhor mata gatos enfermeiro mór, o recem – chegado lhe disse:

— Senhor enfermeiro, desejo que me dê um lugar neste hospital! Quanto antes devo ser sangrado, e levar um caustico na nuca.

— Pois Vm. Está doudo? lhe perguntou o administrador.

— Doudo varrido; accrescentou o enfermeiro.

— E qual o motivo que aqui o conduz, neste estado? Todo roto?

— Eu lhe digo:


Sou negociante estabelecido em uma rua Alfandegada, e viuvo á bem poucos mezes; tive uma mulher boa. — Ah! Sr. enfermeiro — que boa mulher economica, sizuda, só lhe faltava ser bonita, pois para lhe fallar a verdade era muito magra!


Apenas esta morreu ... (é verdade que chorei dous dias) no terceiro passando pela rua do Sr. dos Passos, vi uma parda – vasca gorda, olhos grandes, e bella como uma manhã da primavera.


Consultei meu coração e meu estado...


Porém, o meu pouco juizo deu-me na bola e tomei conta d’ella! E em trez mezes tenho gasto 4: 500$, como luxo e vaidade d’esta mulher, que foi o diabo que me appareceu. hontem ás 2 horas da noite fui procural-a e lá encontrei outro mais feliz do que eu...


Esperei que este feliz sahisse, entrei e taes satisfações tomei-lhe que agradecendo o que com ella tenho gasto foi-me a chocolateira e poz-me n’este estado!


Ora, eu tenho paixão por esta mulher côr de canella, e mesmo assim, tenho medo que torne a voltar á sua casa e que de novo me pegue essa feiticeira.


Mas si tal acontecer, tenho de ir para o hotel de Catumby, por que infelizmente os credores hão de me fechar a porta!


Destes tigres, o maior que tenho, aquelle grande borracho da rua que não é torta, que já fechou a porta á dous bons moços da rua da P... e que lá estão no hotel de Catumby, cumprindo a sentença de quatro annos. E segundo dizem só lhe pegaram pela quebra culposa por não ter o tal livrinho de correspondencias chamado copiador.


Por isso antes que me aconteça o mesmo, quero estar neste hospital por quatro ou cinco mezes, deixando a minha casa entregue ao meu predilecto caixeiro, que fará as minhas vezes. E fico certo que lhe desempenhará melhor do que eu as funcções de patrão.


Quando sahir deste hospital hei de encontrar minha casa em bom estado, e estarei livre das ganas do tal credor borracho da rua que não se chama torta; mas que o é. 


Eis a minha historia!

— Cubiculo n. 2! brada o enfermeiro. E lá se foi á visita do doutor.

— Sr. Administrador, diz um louco a portaria: venho a sua grandiosissima vivenda na espectativa de uma cura! Ah! meu caro! Sou o vice – presidente economia; mas economia suis generis! E’ poupa para aqui e gasta para acolá! Nada de risotas, moncher; eu desço á sumiticaria em minha casa, sou peior que o Sovina de uma certa farça; mas na minha sociedade... na qualidade de seu vice presidente...sou um prodigo dos diabos... e gasto o que não tenho, 60$ mensaes!

— E’ loucura, senhor.

— Bem o sei. Sou uma criançola, não figuro em cousa alguma, e quero ser gente na presidencia de tal sociedade! E então? Novas risotas?...

— O que fazer? Não me rio da loucura, rio-me das economias e da sua vice – presidencia. O mal está inveterado, e só a camisola do Sr. Espanta – gatos lhe poderá valer! Olá! levai o Sr. Vice – presidente para o cubiculo n. 3.


E lá se foi o vice – presidente murcho e surdo como um limão gallego.


O sol brilhava em seu Zenith. Seus reflexos deslumbravam, e obrigavam os olhos mais destimidos, a fecharem-se temeros!


Eis que o porteiro leva as mãos aos seus. Umas lantejoulas expostas aos neverberos o cegava.


Era uma farda bondade que resplandecia á luz diurna, como á nocturna ás gotas de aljovar no oceano.


Encaixada no corpo de um magricello como em cabide de madeira, dava-lhe o aspecto de um estafermo no terceiro gráo de tisica pulmonar.


Este homem bordado estava louco por sua afilhada, e entrou para o cubiculo n. 4.


Bojudo como um tonel e rochunchudo como um frade de S. Bento, ahi vem deitando os bofes pala boca, o rei dos obesos, suando como uma manta de focinho ao rigor do sol, e movendo-se como um jaboty. E’ o Sr. Antropophago negociante desta cidade, que foge espavorido de uma sucia de escholares, e de um bando de negras minas. Chega a sucia á portas do hospital: a gritaria é horrisona, e o especulador com um palmo de lingua de fora brada: — Misericordia, Sr. José Clemente Mangueira!! 


Retinem assobios e o lelê diabolico da nigerrima escolta; chega o Dr. Ventosa. Chegam os enfermeiros, e sahidas as contas o pançudo completamente louco era accusado de tentativas de comilanças e toda aquella furiosa matillia.


Bastou esta accusação para entrar para o cubiculo n. 5, com um furioso caustico na nuca.


Chegaram em seguida seis caixeiros devassos pilhados na rua de S. Jorge pelo prestimoso e incansavel Sr. Pimentel, guarda da moral e fiel cumpridor de seus deveres.


Accommettidos dessa loucura libidinosa, que galopa á redeas soltas pelas ruas da impudicia, foram presos ás portas de uma ilhêas immundas da citada rua, quando pretendião furibundos varar a propria madeira das carcomidas rotulas. Esta sextina caixeiral foi enviada ao cubiculo n. 6. por ser vasto e espaçoso.


Chucharam o vergalho do Sr. Espanta – gatos, e lá ficaram a espera da cura.

— Enfermeiros, á postos!


Ouçamos o guapo e esbelto maluco, que chega em cano fechado.


E’ pintalegrete de marca grande. Tanto ou mais conhecido no Rio de Janeiro do que a salsa – parrilha de Sands.


Enfermeiros á postos! Ouçamo-lo.


Entrada para um louco apelintrada, exclama o gyra saltando do carro.


Sou um purtugalito de gosto; nasci na terceira, e um ilhéozito da minha ordem não deve ser desprezado neste vastissimo hospital de S. Manduca!


Official de alfaiate, inculco pelos trajes, que sou remendão no officio; valho bem tres patacas e meia por dia, e ganho-as muito licitamente no meu officio. A prova é que trajo como vê, como um perfeito dandy, e aguento o repucho como qualquer rapaz taful, useiro e viseiro aos costumes da época.


Ainda criançola e inberbe, (e digo inberbe porque ainda não possuia este lindo bigodizinho) já tinha queda para grandes aventuras amanteticas; era um peralvilho audacissimo, tanto que, tentando contra a inviolabilidade do sacrario monastico consegui arrancar ás usuras do claustro uma pobre menina, que por caprichos tresloucados se fizera freira!


Emfim tanto tenho feito por este mundo infiel; tanto tenho dado com esta cabeça pelas paredes, que o resultado foi metter-se neste carro, e chegar á esta ilha (ilha secca) de S. Manduca!


A narração era immensa...


Os Srs. enfermeiros estavam boquiabertos e á um acceno de seu chefe seguraram o peralvilho, e deram com elle no n. 7. 

— Temos um safa – safa diabolico, Srs. administrador e enfermeiro – mór! Disse á quatro horas da tarde o Dr. Ventosa aos dous senhores do hospital, fumando indolente o seu charutinho da cachoeira.

— O que diz Dr.?

— Digo que na direcção deste hospital ergue-se um turbilhão de poeira: digo que consulto o meu relogio e uma carta  que recebi, e concluo: — Ahi em em carruagem a Exma. Sra. D. Esganarella Tarasca, tida e havida como a discordia, e o máo genio da rua do Engenho- velho!

— Sim?! Perguntou o enfermeiro deixando cahir o labio inferior. 

— Ei- la que chega!


Saltou da trazeira da carruagem um lacaio e abrio a portinhola.

— E’ a Exma. Sra. D. Esganarella Tarasca! disse annunciando sua senhora.


Recendeu um aroma de patchouly, de sandalo, vitvert, e mil flores, que embriagou os sentidos dos empregados.


O Dr. Examimou a doudo, passo-lhe a mão pelas bocas, ouvio-lhe a petição, e fallou:

— Esta senhora está louca! Casada e com tres pretendentes, não sabe a quem attribuia a paternidade de certo negocio que foi concluir-se na casa dos expostos.


E digna de nossos cuidados, e do cubiculo n. 8.


Mas a  douda recalcitrou, gritou, esguellou-se, arranhou-se como uma gata. lambeu-se, cuspio tudo e gritou: — Sou fidalga! Sou tão nobre! Sou... 


E fez um motim diabolico, um safasafa infernal, pervisto pelo Dr. Ventosa!


Mas Pulso de aço e Mão de ferro, levantaram- n’a como uma penna, e conduziram-a para o lugar indicado.


A carruagem voltou para onde viera.


Em seguida um juiz leigo accusado de corruptor entrou para o n. 9.


Para o n. 10 um amanuense de certa repartição que enloquecêra por causa de uma mula ruça; e para o n. 11 um sebeiro fallido, u desses trôlhas conceitudos, um jagodis sem nome, e ainda mias sem caracter!


Meia noite!


Era a hora dos demonios!


O Dr. Ventosa passava por uma dessas insomnias, que tanto mal no fazem!


Tomou um jornal e leu em uma pagina o seguinte: A Reclusa de Satanaz.


— Para a semana! bradou elle.


E quando menos esperava, correu a visitar um novo doudo chegado áquella hora.


Era um libertino afazendado! Clamava como um possesso e apertava as perninhas de uma juruty...


O ciume lhe motiva a loucura. A inveja lhe attribulava o espirito, a calumnia era a sua oração favorita...


Este diabo liberto entrou para o cubiculo n. 12 á 12 horas da noite, no dia 12 de fevereiro!


A redacção — HOSPITAL DOS LOUCOS á rua do Hospicio n. 224 sobrado, aceita qualquer artigo e correspondencia vindo em carta fechada a seu redactor – com as iniciais A. B. C. uma vez que esteja nas forças e idéas do jornal, em termos decentes; e que não offendam á moralidade publica: não se aceita artigo algum, ou correspondencia que indique o nome proprio da pessoa que se trata:


 Qualquer artigo de interesse proprio, pagará 100 rs. por linha, e vindo competentemente responsabilizado.


Por emquanto o HOSPITAL DOS LOUCOS se publica uma vez por semana; e logo que tenha numero sufficiente de assignantes sahirá duas ou tres vezes.


A redacção affiança guardar o mais inviolavel segredo áquelle que lhe fôr confiado.


Preço da assignatura por um

Anno ........................12$000


Preço da assignatura por um

Semestre .................... 6$000


Póde principiar a assignatura em qualquer dia, recebendo o assignante todos os numeros atrazados; e terminará sempre a assignatura no fim de junho e dezembro.