Periódicos


Biblioteca Nacional

Seção de Obras Raras

ANNAES DE MEDICINA BRASILIENSE. Rio de Janeiro: [s.n.], n.5, p.111-120, ano 2, out. 1846.



Discurso do Sr. Dr. José M. da Cruz Jobim

Senhores doutores. Em cumprimento dos nossos estatutos, que me impoem o dever de dirigir-vos a palavra, depois do acto sollenne que vem de passar-se, pelo qual vos foi conferido o titulo de doutor em medicina, começarei sonhei por dar-vos os parabens por terdes chegado ao termo dos vossos trabalhos escolares, que me congratulo com os mestres desta escóla pelo prazer que hoje sentem, a darem á sociedade nova porção de cidadãos habilitados para exercer uma profissão que, com ufania o direi, a nem-uma outra céde em erecimento e utilidade pública. Certamente, de todas as sciencias a mais importante, ao menos pelo seu objecto, a mais bella sem duvida, é a que nos ensina a prevenir e curar numerosas moléstias que pódem affligir a nossa especie; ella é o principio e o fim de quase todos os conhecimentos humanos, é tão nobre e sublime que, como o disse o cerebro orador romano, mais do que nem-uma outra cousa assemelha o homem á divindade: Homines ad Deos nella re proprius accedunt quam salutem hominibus dando. Mas se assim o devemos acreditar, já os vossos trabalhos escolares vos terão feito entrever quanto é difficil a carreira que ides começar, e que longe ser segura, cobertas de deliciosas flores, enterra espinhos e precipicios que muito importa evitar. Autorisado pela experiencia de muitos annos, dir-vos-hei em resumo o que nella tenho visto e experimentado, solicitando a vossa benevolencia e atenção pela ultima vez, que tenho a honra de dirigir-me a vos como mestre e director desta escóla. Dando-vos alguns conselhos e offerecendo-vos os resultados na minha fraca experiencia, cumpro com um dever que póde para o futuro ser-vos de algum proveito. Dir-vos-hei quaes são os embaraços com que tem de lutar na prática um medico novo, os riscos que corre a sua reputação, e qual deve ser o seu comportamento no exercicio clinico e na vida social.


Antes de tudo, despindo-vos de toda vaidade presumpção, reflecti bem que até agora vós tendes embebido os principios elementares da sciencia, e que, não sendo possivel sahir-se de uma escóla prático consummado, esses principios, essas theorias tão attractivas não serão sempre guias sufficientes ao pé dos enfermos, porque tudo nos livros é generalisado, e tudo na pratica particularisado; aquelles signaes tão fáceis, aquelles meios therapeuticos com tanta segurança aconselhados pelos autores, vereis que muitas vezes em vão se procuram ou enpregam, quando se trata de converter a nossa sciencia em arte, e fazel-a produzir o que com tanta largueza prometteu. Assim como o cadaver nada é mais facil do que a manobra dos processos operatorios, e sobre o vivo mil obstaculos nos embaraçam, tudo são incertezas e perigos, assim succede no começo do exercício da medicina, e em tanto maior gráo quanto o novo pratico fór mais instruido. Elle tem sempre medo do momento que deve exercer pela primeira vez, e que depois de ter lido e visto praticar, tem de julgar, escolher e praticar por conta própria. Escrupuloso em observar as regras da arte, receioso de enganar-se a sua applicação, elle examina com maior cuidado, e nunca se decide sem receio, crendo incessantemente diante dos olhos os obstaculos que procedem da complicação dos mais simpleces accidentes, e as obrigações que o seu dever lhe impõe; o pratico novo, quando instruído, póde assemelhar-se assim ao experimentado e proceder como elle, aconselhando por medo de poucos remedios, quando o outro assim o faz á vezes por methodos e confiança; uma espeita a natureza e obra pouco por ser julgar pouco esclarecido sobre as suas precisões, quando o outro conhece os seus esforços e limita-se em muitos casos unicamente a ajudal-os. Dest'arte, por motivos diversos, poderão ambos cumprir o sábio preceito de Baglivi, se alicubi, certè in medicina multa scire opportet et pouca facere. Pelo contrario o ignorante a tudo se tira afoutamente, abraça hoje um systema para logo depois seguir outro, munido de certos preconceitos, a presunpção o cega, e não o deixa vèr senão o que elle deseja; nem para elle ha dúvidas, a natureza não tem segredos as suas vistas penetrantes tudo persebem átravez da organisação humana; todas as molestias curam-se e explicam-se perfeitamente, elle tudo affirma em tom dogmático e perenptorio e como o alucinado espanta-se que os outros não vejam o phantasma que só a elle persegue. Tal é a confiança que tem nos meios therapeuticos, que todos os phenomenos, todos as mudanças de uma molestia dependem, nunca dos esforços da natureza, mas sempre dos medicamentos que prescreve, embora inuteis e inefficazes. Na alta idéa que faz da sua potencia julga que nem- um dos males que afflingem a especie humana é capaz de resistir-lhe, e prodigalisando sem discernimento tonicos, antipasmodicos, emeticos e sangrias, entende que deve estar sempre em uma actividade temeraria e malfazeja.


Ora entre esses extremos ha um meio a seguir, por onde marchareis com mais segurança; tanto a irresolução como a temeridade irreflectida  tem funestas consequencias  que cumpre evitar; mas lembrai-vos sempre de que aquilo mesmo que é mais digno de censura é muitas vezes um motivo de recommendação para o commum dos homens, e o que é uma prova de sãa consciencia, probidade, e espírito recto póde ser para vós motivo de serios desgostos e descredito; para o vulgo — hesitar ou duvidar é ser ignorante, ousar prometter sem consciencia é ser sabio e habilidoso: o vulgus decipi vult  infelizmente é provérbio muito antigo e verdadeiro, e se o tem sido todos os tempos e em todos os paizes, porque motivo o não será também onde a razão publica esteja ainda em grande atrazo?


Por experiencia propria conhecereis quanto é difficil e delicada a posição do medico que começa; animado pelas mais nobres inspirações, cheio de zelo pelos doentes, enpregando todos os seus esforços e analysando com maior cuidado todos os phenomenos mórbidos, usando de grande reserva no emprego dos meios therapeuticos, se o doente guarece, ainda que o caso seja o mais simples, daquelles que só reclamam regimem e espectação, como ha nos homens uma tendencia irresistível para o hyperbolico, o maravilhoso, mil jovens se levantaram para celebrar as maravilhas do novo doutor, a fama espalhará por toda a parte o estrondo dos seus milagres, elle tomar-se-ha logo um gênio raro com domínio absoluto sobre a morte; mas desgraçado se uma molestia grave rapida na sua marcha rouba-lhe em poucos dias um doente na flor da idade; se, tendo praticado uma operação perigosa, não sucumbir o operado, então a injustiça e a  má fé ligam-se com a mesma tristeza e a frescura com que foi exagerado o vosso saber, para confirmar a ignorância, encarecer os poucos annos e a falta de cuidados da vossa parte; e então, talvez perseguidos pela mais cega prevenção, atormentados pelas mais calumniosas imputações, sejais obrigados a procurar em paiz diverso casos menos desgraçados e mais equidade. O que devemos d'aqui concluir senão que, dependendo a vossa futura reputação dos primeiros sucessos, usareis de grande reserva, recorrendo nos casos perigosos ao conselho daquelles, que por sua idade e reputação estabelecida vos possam abrigar da injustiça dos homens, e mesmo esclarecer-vos nas vossas dúvidas, porque emfim, quaesquer que sejam as consequencias, nem no começo da vossa vida, nem quando tenhás conseguido nome e celebridade, vos podeis eximir do tratamento daquellas moléstias, em que a natureza e arte trabalham em vão para combatèl-as; não só é certo que quem nada arrisca nada ganha, como também a humanidade e a religião exigem de vós o mesmo zelo, a mesma assiduidade para com aquelles, a quem uma affecção organica tem necessariamente de conduzir á sepultura; como o homem publico a ninguem vos podeis recusar, a todos pertenceis que reclamarem o vosso ministério, e nada é mais digno de censura do que um medico, ou um cirurgião que, prevendo o exito duvidoso ou infeliz de uma molestia, ou os perigos de uma operação, alias bem inidicada, recusa o seu ministério pelo receio de comprometter a sua reputação, retribuindo assim a confiança com a ingratidão, e sacrificando um resto de esperança aos interesses do seu amor proprio.


Nos casos em que a moléstia tome um caracter mais complicado, em que o diagnostico, seja duvidoso e as indicações incertas, importa mais que tudo seguir um plano, escrever as suas circumstancias e signaes na ordem em que se forem apresentando, para no vosso cabinete combinardes com o que virdes nos vossos estudos particulares; se assim o não fizerdes, não só podereis esquecer-vos de circumstancias importantissimas, como tambem deixareis enthesourar o que virdes para servi-vos de guia em casos em casos analogos. Não sabendo para o futuro aproveitar-vos dos vossos erros ou dos vossos acertos, só adquirireis com o tempo o habito um irreflectido e nunca a verdadeira experiência. Desde da primeira visita convém pois escrever o que observardes, as revelações do doente e dos assistentes, tudo enfim que vós mesmos virdes de algum valor, evitando sempre a precipitação nos vossos juízos; e para melhor acerto seráo necessário pesar bem todas as circumstancias e, isolal-as e reunil-as antes de vos pronunciardes, ter sempre o feito em vista do que ides fazer, e como ordinariamente na primeira visita nos decidimos sobre o tratamento, se o vosso exame fòr superficial julgareis mau da molestia, e desgraçadamente, por certo extincto de vaidade, raras vezes desistimos dos nossos primeiros erros. No decurso da enfermidade observareis, e descriminareis, se possivel fór, as mudanças devidas ás applicações therapeuticas daquellas que dependerem da propria marcha e natureza da molestia; para este fim o acerto do vosso juízo dependerá da assiduidade e frequencia com que virdes o enfermo para melhor apreciardes a força e caracter dos paroxysmos e exacerbaçoes. Em alguns paizes da Europa o typho é o gênio má de que quasi todas as molestias, no nosso as intermitentes o substituem, e quem o negar pratique em grande escala em algum hospital, ahi verá que as excepções não infirmam esta regra geral. Na observação, sómente as impressões feitas sobre os sentidos vosmerecerão particular attenção, porque é sómente por uma reunião de signaes exteriores não equívocos, e pela sua analogia com os resultados da experiencia, que o medico póde estabelecer um juízo seguro desprevenido para o seu procedimento.


Acostumai-vos a reflectir, não só sobre o que verdes, mas tambem sobre a massa total da enfermidade; praticar sem reflexão é como viajar sem observar; no fim de muitas fadigas e dispendios sabereis tanto dos lugares passados como antes da vossa viagem; no fim de trinta annos de prática estareis tão adiantados como no vosso tirocinio.  Bom é o costume seguido pelos práticos de alguns paizes de darem ao doente, quando restabelecido, uma exposição da sua molestia e do tratamento empregado, elle estimula o medico para ser mais attento, e muito aproveita ao mesmo doente para o futuro.


Se bem apreciardes a arte de observar, se reconhecerdes todo o seu valor, não desprezareis os escriptos dos grandes mestres da antiguidade, que souberam nella avantajar-se; e a quem disser que elle não tem valia, póde applicar-se o que disse o Nicómaco a um espectador que nada via admiravel em um quadro de Apelles: se não presta, toma os meus olhos e vè. Esforçando-vos por caracterizar uma molestia, sem o que não ha base firme para o tratamento, não vos bastará muitas vezes a propria experiencia; recorrei então aos autores originaes comparando o que tiverdes visto com os factos analogos consignados nos escriptos dos bons observadores, e aproveitando-vos da alheia experiência como salvo conducto da vossa, porem sempre de prevenção contra os systemas. E o que são elles em realidade senão perfeitos paradoxos do orgulho humano, que em medicina succedem-se como as folhas nas arvores, e cujo effeito mais constante tem sempre sido espalhar entre nós o schisma e o escandalo. Em outros tempos foram grandes observadores Hipocratis Sydenham, nos vossos dias quem póde negar originalidade e talento raro a Laenec, Andral, Chomel, Dumas de Montpellier e outros; e quem não disconfiará o espirito de seita de alguns systematicos, cujos escriptos comtudo não são totalmente para desprezar-se. Mas enfim, por instruido que seja o medico que começa, qualquer que seja a sua habilidade, esta sujeito a commetter faltas; a mais sãa erudição, o mais profundo juízo o não livrarão deste tributo, que para todos no seu tirocinio; até que seus olhos aprendam a ver, até familiarisa-se com os differentes aspectos das molestias, andará muitas vezes as alpapadelas; porque, embora haja em medicina princípios fixos, a sua applicação a casos particulares é tão difficil e complicada, que embaraça mesmo ao prático o mais experimentado. Quem tem occasião de fazer autopsias cadavericas, freqüentes vezes reconhece quanto são falliveis os nossos juizos. Para reconhecermos o genio de uma molestia, e encaminharmos o melhor tratamento, são-nos necessarios muitos raciocinios e tentativas, praticarmos ora uma cousa, ora outra, guiarmo-nos pela lei da mais exacta analogia, nada desprezarmos; nem precipitarmo-nos; nem perder a occasião, marchar segundo as circumstancias, e seguindo sempre em todo o rigor o primeiro preceito de probidade medica: primun non nocere; e mesmo algumas vezes não haverá recurso senão afastarmo-nos das vias ordinarias, e marchar um pouco ao acaso, quando os methodos arrazoados não sejam seguidos das vantagens que esperamos, sendo desta sorte levados a seguir certo empirismo illuminado pela razão quanto ser possa, mas nunca nos deixando seduzir pelas apparencias explicativas, quando os factos se fallem mais alto. 


Infelizmente, a dizer-vos em tudo a verdade, para se gozar de grande reputação entre o povo não são necessarios tantos cuidados e trabalhos, nem grande merecimento, nem muito amor ao estudo, nem-um juízo profundo. O que pois é preciso eu vo-lo direi sinceramente, muito alardo, muita parola, uma audacia imperturbavel, ser enfim charlatão; este para o povo é como nas cortes o lisongeiro, a fortuna os segue, porque ambos por egoísmo sabe aproveitar-se das preoccupações populares ou das paixões dos soberanos. Mas para um medico que preza a dignidade da sua profissão, não é certamente a arte de ganhar dinheiro o que mais importa. Os homens illustres que por seu saber e talento, que pelos benefícios que fizeram a seus similhantes adquiriram direitos á veneração da posteridade, desprezarão sempre semelhante comportamento, quando pelo contrario os que no exercicio da medicina só vem um meio de enriquecer, nem-um valor dando ao amor da verdadeira gloria e da humanidade, sendo comsigo mesmo consequentes, julgo a sciencia inutil, porque sabem que lhes não é necessaria. O que daqui concluiremos senão que, sendo o povo naturalmente simples e desacautelado contra os embustes do charlatanismo, é da rigorosa obrigação de um governo sábio e paternal, senão extinguil-o totalmente, porque sería isso impossível, a menos reprimil-o quanto ser possa, como plantas parasita da arte de curar, que a faz definhar e perecer. Porem se o charlatanismo é um meio vergonhoso e incompativel com a dignidade medica, ha comtudo certo tacto e habilidade que bem concilia com a prudencia e saber, e não é totalmente para desprezar-se. Entre um povo culto e polido, o homem de espírito e habilidade, o medico sabio e atilado não deixa de adquirir reputação se consegue chamar sobre si a attenção pública por alguns successos felizes; um dirssenimento prompto e seguro para aproveitar-se da verdadeira relação das cousas e dos meios, uma intelligencia fina, tão contraria a falsidade como a imprudencia, lhe servirão de guia para fallar ou calar-se a proposito, e tirar o melhor partido possivel de todas as circumstancias que se apresentem; e como também é certo que a intelligencia tem força irresistível, quando ella consiga annunciar-se com discernimento e prudencia, sem ofensa do amor proprio dos outros homens, não deixará de obter a palma, quero dizer, a reputação e a estima publica. Mas ainda assim não é menos certo, que ordinariamente as grandes reputações populares, em medicina como em política, assemelham-se a certas estatuas cujas bellas proporções só se admiram quando vistas em grande distancia, que o povo mais depressa recompensa as apparencias do merecimento do que a sua realidade, e que suas predilecções servem mais para sua satyra do que para elogio dos homens. E então, como um meio de sobrepujar os desgostos da sua injustiça, o que opporemos nós senão muita resignação e paciencia?


A paciencia é com efeito de todas as virtudes, que o medico deve possuir, a mais necessaria, não só no trato da vida social, como tambem no exercicio ordinario da nossa profissão. Quando uma molestia se annuncia por signaes vagos e fugitivos, quando nem-um symptoma a caracterisa, que paciencia nos é necessaria no exame das suas causas, da sua invasão e marcha! e como as menores circumstancias pódem então ser importantes, da paciencia, ou attenção sustentada no arduo trabalho de as reconhecer e avaliar, dependerá o diagnostico, base unica do vosso procedimento; o que fòr dotado de imaginação ardente espirito voluvel nunca poderá ser grande observador nem adquirir a verdadeira experiencia.


Quantas vezes vos succederá subtrahir um doente aos perigos que o ameaçam, estar prestes a colher os fructos dos vossos cuidados, e repentinamente sobrevir uma complicação imprevista, que destrua em um instante todas as vossas esperanças, ou se é á custa de mil fadigas e afflicções conseguirdes uma convalescencia inesperada, um desvio de regimem, effeito muitas vezes da mais deploravel educação, anniquilar completamente todos os vossos esforços. Ainda mais, os assistentes, os amigos e parentes exacerbarão de mil modos a vossa paciencia, criticando uns o vosso procedimento, querendo outros que vos reguleis pelo seu parecer, retardando ou impedindo a execução das vossas ordens, exigindo de vós um juízo franco e confidencial sobre o estado do doente para logo depois lh'o irem communicar, e reduzil-o assim ao maior dos tormentos, o desespero. Vereis enfermos que só vos chamarão para atanazar-vos com a exposição obscura de males que pretendem soffrer, a loquacidade os allivia, a nem-uma pergunta respondem de maneira precisa, continuamente divagam, e nas suas queixas confundem os objectos os mais disparatados; medrosos e desconfiados em tudo vem o maior perigo, tudo exageram ou interpretam mal, e se tem algum talento todo o empregam em argumentos e exigências de explicações, que se não podem satisfazer sem grande astúcia e força de raciocínio; destruída uma chimera, apparece logo uma nova que é necessario com bater; outros querem que o medico só com elles se occupe, que por elles tudo se abandone;  conhecem outros os remédios pelos nomes,  todos lhe são nocivos, elles são a causa dos seus soffrimentos, e a molestia é cousa innocente que tem no corpo. Ainda quando esses soffrimentos são reaes, porque a sensibilidade esteja exaltada, a tudo supportaremos com resignação, mas quando a causa de tantos desvarios é a indocilidade, a má educação e o capricho, haverá paciencia que baste para resistir a tantos tormentos! e quem os perdeu, quem os poz em tão máos habitos fòram muitas vezes os mesmos medicos, que nada receitam sem darem ridiculas explicações, já da natureza da molestia, já da maneira por que obram os medicamentos, já da razão por que os applicam; usando assim de nimia franqueza,  assentam que melhor lhes captam a confiança; fatal engano!a medicina como a religião perde todo o seu valor quando não seja acompanhada de certo encantamento e respeito, e temos nós culpa de que os homens sejam de tal sorte construidos que mais esperem do que não conhecem que daquillo com que estão familiarisados?


Se em todas as posições em cada passo da sua carreira o medico tem extrema necessidade de paciencia, se ésta virtude é para elle o genio, como o disse um celebre escriptor, a reserva e a prudencia não lhe são menos necessarias, não fallo já na que lhe é indispensável na escolha e administração dos remédios, mas da que deve dirigir o seu comportamento moral no exercicio da medicina. Como por um lado devais ter a maior vigilancia possivel em conservar toda a integridade da vossa reputação, e por outra, não sabendo o commum dos homens descriminar o que é curavel do que o não é, haja nelles uma injusta tendencia para nos accusarem pela impotencia da arte, e abandono da natureza, exige a prudencia que em todas as molestias graves reclameis as luzes dos vossos collegas, tanto para dardes ao doente, se fór possivel, soccorros mais efficazes, como para vos pordes a abrigo dos ataques da malevolencia. Ora neste commercio, que com elles tiverdes, lembrai-vos que os medicos honram a sua profissão vivendo na melhor harmonia, que cheios de attenção uns para com os outros, devem procurar todas occasiões de fazer entre si generosa mercancia de bons procedimentos, e que nada é mais indigno do homem de bem do que comprometter a reputação de um collega censurando-o na sua ausencia, com o unico fim de inculcar-se como o mais habil e instruido; quem assim procede deshonra-se a si mesmo, expoem-se as vergonhosas represalias, e patentea toda a baixeza do seu coração. Afastemos de nós a injusta imputação de um escriptor que diz: non est invidia supra medicorum invidiam porque o verdadeiro medico desconhece a inveja, só propria das almas baixas, collocando-se acima dos calculos mesquinhos do interesse. Quando mesmo alguma falta involuntária tenha sido claramente commetttida, é mais nobre e generoso propòr com prudencia a sua emenda do que tornal-a manifesta a todos os olhos, se já dahi já não resulta o menor beneficio. E quem é esse tão vaidoso e insensato, que, no exercicio de uma profissão tão delicada, se julgue sempre a abrigo de uma bem merecida censura. Qual o infallivel nos seus juizos, qual o que póde bem julgar de uma molestia e do seu tratamento sem observal-a attentamente, em todas as suas phases fugitivas? Se, chamado para tratar de enfermidades, cuja existencia confirmada poderia trazer a perturbação de uma familia, importa sobretudo que vos não enganeis no vosso juízo, e que quando mesmo seja elle exacto, guardeis a maior circumspecção e reserva; assim também quando succeda receber-des confidenciais ou revelações quaesquer que seja, e que vos venham em razão do vosso ministerio, então por honra e probidade vossa, será do vosso dever calar-vos ate mesmo com perigo da propria vida e liberdade.


Sobre outro ponto não menos importante vos recommendarei tambem muita prudencia, quero fallar do prognostico; nada perdemos em desconfiar por muito tempo do nosso juízo a este respeito, não tanto com tudo que deixemos de prevenir pelo menos os assistentes do imminente perigo. Os moços tem grande tendencia para alarde-ar um tom prophetico e infallivel, mas lembrai-vos de que se alguns medicos tem devido a sua reputação a prognosticos confirmados, outros pelo contrario a tem perdido por nimiamente precipitados. Decidi-vos a éste respeito com sabia lentidão, se o vosso prognostico fòr inconsideradamente dado como lisongeiro, succumbindo o doente, sereis tido pelo menos como imprevidente, e se o derdes como funesto, como a esperança é vida, e vos indiscretamente a tiraes, sereis com justa razão considerados como desnecessarios. Porém a circumspecção e prudencia e nem-um caso se tornam mais urgente do que quando temos de esclarecer a justiça e guial-a pelos tortuosos labyrinthos em que o crime se insinua. É aqui que a ignorancia, a precipitação e prevenção nos nossos juízos pódem ter as mais funestas conseqüencias; que uma só palavra inconsideradamente dita póde ser bastante para perder o innocente ou tornar impune o criminoso com igual quebra dos interesses da sociedade. É aqui que o homem da arte mais deve abster-se de emittir juízos decisivo sobre materiais em que não seja competente, porque trata-se da honra e vida dos nossos similhantes, e por uma vaidade funesta não vos querereis ingerir na decisão de factos que não conheceis ou sobre cuja interpretação não estejais sufficientemente esclarecidos. Finalmente, não ha profissão que exija mais severa probidade nem costumes da mais irreprehensivel pureza, do que a do medico; confidente de um sexo, a quem serve de amparo, podendo tudo sobre o espirito dos seus doentes, quanto não será elle criminoso se abusar destas vantagens deixando-se arrastar por inclinações viciosas, se por exemplo a avaresa o fizer solicitar uma herança, ou se no seu ministerio ultrapassar os limites da decencia e da política? quando assim succeda não haverá talentos nem habilidade que o preservem de um bem merecido abandono, e de uma decadencia completa no conceito dos homens, porque elles que nos confiam cegamente o que tem nesse mundo de mais caro, a honra de suas mulheres e filhas, tem todo direito a exigir de nós um coração puro e costumes integros.


Mas para vosso alento consultae a biographia dos homens illustres da nossa profissão, vós ahi achareis numerosos exemplos das mais elevadas virtudes, quer públicas quer privadas; dedicação generosa, grandeza d'alma, beneficencia são qualidades que brilham em huma multidão de acções sublimes, que a história conserva nos seus fastos, e em que fòram medicosos heróes. Vede Hippocrates regeitando os magníficos presentes de Artaxerxes, e respondendo ao seu enviado: "dizei ao vosso amo que sou assaz rico, e que a honra me veda aceitar os seus presentes, passar-me a Asia, e soccorrer os Persass que são inimigos dos Gregos." Quantos para a salvação de sens similhantes, se tem arrojado aos maiores perigos, aos abysmos da morte? e onde estão os homens mais dignos das sympathias das almas generosa? Procurai-os no meio das epidemias, entre os flagellos e desgraças que acompanham a guerras. Na verdade, quem pode contemplar sem emoção nesses homens, que afrontam todos os seus perigos para diminuir-lhes os horrores; que calor de dedicação, que esquecimento continuo de si mesmo, ou antes que abnegação, que intrepidez continuada, quer se exponham ao contagio das molestias, quer voe para arrancar e curar mesmo debaixo do fogo inimigo victimas ensangüentadas e amortecidas Missionarios de humanidade, elles são, como diz Drov, os unicos representantes da philantropia no meio de scenas de carniceria e de destruição, são sim a unica esperança, apoio e consolo dos desgraçados, cujos soffrimentos adoçam, cujos males encurtam, cuja coragem reanimam, partilhando com elles os rigores da fome, a inclemencia das estações, a fadiga das viagens; e quando a necessidade o exige, nutrindo-os com o próprio pão, e cobrindo-os com as proprias vestes. Mais admiráveis do que o guerreiro, elles não procuram sacrificando a propria vida senão salvar a dos seus similhantes, e soccorer a desgraça. Quem não admirará o comportamento de Bertrand Didier na famosa peste da Marselha, o de Mertens na de Moscow? Em poucos mezes esses homens magnanimos arrostaram mais vezes a morte, do que o póde fazer o soldado o mais intrepido no decurso de muitas campanhas. Heróes abrilhantados com ouro e fama, heróes de theatro, refflicti nessas cenas afflictivas, e dizei-nos, se neste mundo as boas acções que tem sua valia, se no vosso conceito o homem é mais do que simples instrumento de esteril vaidade; o que sois vos á vista destes heróes obscuros e desconhecidos? Esta philantropia, este amor dos seus semelhants, confirmado pelas mais duras provas, os campos de batalha, as scenas de destruição e terror no meio das epidemias, ahi como em qualquer outra parte, na choupana do pobre como no palacio dos reis, brilham com o maior fulgor. Os medicos e cirurgiões consagraram muitas vezes o favor com que os honraram os monarchas em fazer o bem, e em dizer com firmeza a verdade. Ambrosio Pareo teve animo e coragem, não só de adoçar em seu favor o caracter feroz de Carlos IX, quando nas vesperas de S. Bartholomeo este monarcha o quiz obrigar a deixar a sua religião pela catholica, como tambem depois de passado aquelle dia, para todos os seculos horrivel, foi elle mesmo quem lhe aguçou os remorsos, e o fez voltar a sentimentos mais humanos. A historia conserva a lembrança da consideração extrema que Luiz XIV tinha por Marechal, seu cirurgião; por sua intervenção e valimento ficou o duque de Orleans livre do vexame publico por que o pretendia fazer passar aquelle principe tão arbitrario como grande e generoso. Não foi também Fagon e Felix, os unicos que entre toda a còrte, que se aminaram a interceder pelo illustre sabio, o arcebispo de Cambrai? Estes factos seríam aqui sem importância se não servissem para mostrar que em qualquer posição e dignidade a que o medico se eleve, a sua missão é toda beneficente e philantropica, e que afastar-se deste comportamento, sería escandalosa contradicção com as funcções do seu ministério. Assim, a multidão dos conhecimentos que lhe são necessarios, os seus deveres, o exercício do seu estado, os cuidados da sua reputação, tudo em fim lhe veda tomar activa parte nas tempestades políticas, que subvertem os impérios e perturbam a ordem estabelecida nas sociedades. Em attenção a si mesmo, elle deve abster-se de assoalhar uma opinião politica decisiva, mórmente quando tenha a desgraça de viver em épocas tempestuosas e anarchicas; amigo decidido do socego público, como primeira condição da felicidade de todos, por profissão bemfazejo, o medico a todos pertencem, a todos consagra as suas vigilias, a todos sem distincção prodigalisa os seus cuidados; e velem outros sobre os destinos do mundo.


Estranhos a todas dissenções que flagelam as sociedades tende decidida repugnancia para tudo o que póde distrahim-vos dos deveres do vosso estado. Os revolucionarios, os espiritos fortes são ordinariamente de pouco prestimo e de nenhum merecimento, e aquelles que o tem tido, o que ganharam em seguir os impulsos do seu genio ardente? O que ganhou Ranzori em tomar parte tão activa na revolução do seu paiz, em mostrar-se tão ingrato para com o principe que tinha sido o seu bemfeitor? O desprezo de todos os homens de bem. O que ganhou Cirillo, o sabio virtuoso Cirillo, abraçando em Nápoles com tanto fogo os principios demagógicos da revolução franceza? A historia que o diga. O que ganhou Lestocq em pór-se á festa de uma conjuração que teve por fim collocar Isabel sobre o throno da Russia? Pela mais negra ingratidão o mais ignominoso castigo. O que deu a revolução franceza aos poucos medicos que n'ella tomaram tão activa parte? Ella que os ellivou, ella mesmo os devorou. Alem de que, abandonar o serviço dos enfermos para partilhar o furor dos partidos politicos, é desconhecer a união intima da arte de curar e da boa moral; se é certo, como crémos, que a probidade, a justiça, o amor dos nossos similhantes, tudo enfim se perturba e inverte no meio dessas cathastrofes, que são a expressão medonha dos furores populares. O amor da patria concilia-se perfeitamente com o respeito devido a todo governo estabelecido, e só por uma inconseqüencia, tão ridicula como perigosa sacrificará o medico de bom grado a sua tranqüilidade, os cuidados de sua reputação, e seus proprios interesses enfim por outros que lhe são estranhos. A política, como uma sorte de hallucinação, o inhabilitha para bem exercer os deveres do seu estado; e possuir a maior instrucção possivel unida ao mais dicidido zelo pelas suas obrigações é o que a sociedade tem direito de esperar d'elle. Quanto ao mais, obedecer e submetter-se religiosamente ás leis do seu paiz é dever de que elle, homem assisado e sabio, mais do que ninguém tem rigorosa obrigação de dar exemplo. Não é minha intenção dizer-vos e sejais indifferentes á boa ou má fortuna da vossa patria, esse egoismo sería igualmente incompativel com a dignidade da vossa profissão; mas só condemno os excessos, como em medicina censuro os systemas imaginarios; e se por acaso succeder que do seu exercicio sejais distrahidos para qualquer fim publico, levai ahi o mesmo zelo pelas letras, o mesmo amor dos vossos similhantes, a mesma probidada emfim que a vossa sciencia exige de vós; assim contribuireis para a felicidade da vossa patria, para honra da vossa escóla, para a gloria e esplendor do reinado do vosso monarcha, a quem por tantos títulos temos todos rigorosa obrigação de venerar. Eu vos desejo as maiores felicidades.


Dr. J. M. da Cruz Jobim