Periódicos
Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional
Seção Artigos de Jornais
REVISTA DA SEMANA. Rio de Janeiro, ago. 1941.
Escragnolle Doria
O trienio 1839-1841 foi cariocamente assinalado por melhoramentos de grande utilidade social e urbana na cidade capital do Brasil.
A 2 de Julho, dia em que a Visitação de Maria à sua prima Isabel põe a Igreja em galas, a Santa Casa de Misericordia inaugurava novo cemiterio na Ponta do Cajú, em sítio também conhecido por Ponte do Calafate, ignorado o nome do calafetador de embarcações que por ventura tivesse denominado o sítio.
Desde 2 de Julho de 1839 ninguem mais foi sepulto no cemiterio contiguo ao hospital da Misericordia, cemiterio cuja vista impressionava os doentes de certas enfermarias chamados sem querer à lembrança do memento homo quia pulvis es.
Só mais tarde, desapareceriam as sepulturas proximas da igreja do Misericordia encravada na massa da Santa Casa e de frente para um largo ainda hoje bem estreito, mas onde já coube a estatua de Francisco de Castro.
A 2 de Julho de 1840 realisou-se nova solenidade na Misericordia, a da benção da pedra básica de novo hospital na praia de Santa Luzia, então verdadeiramente digna de nome e de bater oceanico em orla de areias.
Consagrando a data, medico da Santa Casa, o Dr. De-Simoni, o fez em verso dizendo:
Majestoso e grande
Hospício aqui para quem soffre, e geme
Surgirá, que de longe o nauta aviste
E que ao entrar de Niteroy nas aguas
Lhe mostre da caridade o templo.
Ao templo lançou pedra basica D. Pedro II juvenil, isso na chacara do hospital da Santa Casa, justo no logar onde fôra terra de cadaveres. Aos mortos substituiam os vivos para escaparem ou não a tumulo, leito que a todos espera com medida certa de sete palmos.
No proprio 1840, José Clemente Pereira, o maior dos grandes provedores da Misericordia, que os teve vice-reis, dizia em relatorio: “Não sei que espírito de previdencia me inspira! a chacara do Vigário Geral há de um dia converter-se em Hospício de Alienados”.
O espirito de previdencia não enganou José Clemente, e tal espirito segue de perto os homens de bem, auxiliares da Divina Providência da qual é reflexo a previdencia como da mesma Providência é outro reflexo o impulso à caridade.
Comprehendeu-o, unindo qualidade de homem a dignidade de sacerdote, monsenhor Antônio Rodrigues de Miranda, carioca de nascimento, vigário geral sede vacante e do bispo D. José Caetano. Falecido monsenhor Miranda em 1821 legou a sua chácara da Praia Vermelha à Santa Casa, o imóvel valorizado por importante pedreira convidando a construções.
Emprehendeu-as José Clemente e uma vez emprehendidas destinou-as aos alienados que, dizia o provedor – procurador dos pobres “viviam encerrados nos acanhados aposentos que a piedade podia oferecer à desgraça”. E acrescentava José Clemente estas palavras de ouro: “todos os benefícios materiaes por muito valiosos que sejão são poucos comparados com outros de mais subido valor que a chácara está prestando”. Entendia José Clemente que o valor moral está muito, muito, mas muito acima de melhoramentos materiaes, uteis de certo quando bem entendidos, porém somenos em confronto com as obras caraterisadas pelo valor moral. Dinheiro para melhoramentos materiaes adquire-se, caráter para as obras de valor moral cultiva-se.
A 18 de Julho de 1841, dia no qual a Igreja sagrava D. Pedro II e a Nação o coroava, um decreto entregou à Misericórdia a fundação e a administração do que De Simoni chamaria, mesmo em prosa, um novo “templo”: Foi o Hospício de Pedro II destinado ao alívio ou à cura de insanos, em muitos a robustez física de triste contraste com a fraqueza do intellecto.
A 2 de Setembro de 1841, José Clemente convocou Mesa sobretudo para se nomearem os irmãos administradores do Hospício. Para tanto escolheu a Mesa os primeiros dirigentes do estreado estabelecimento. Sahiram eleitos unanimente o Dr. Digo Soares da Silva de Bivar, o barão do Bonfim futuro marquês, e Francisco José da Rocha Júnior, vindouro conde de Itamaraty, respetivamente escrivão, tesoureiro e procurador do Hospício, cujos primeiros serviços deviam zelar.
Declarou José Clemente à Mesa que mandaria passar procuração ao tesoureiro Barão do Bonfim, para que com tal força de poderes comprasse a casa de Elisabeta sita na rua da Azinhaga por assim convir ao Hospício. Casa da Elisabeta, rua da Azinhaga, vamos entregar a elucidação de taes nomes a pesquizador da ordem e valor de Noronha Santos.
Em Novembro de 1842 oferecia-se o Dr. Jobim para visitar e tratar os alienados do Hospício e como fosse o médico facultativo no Hospital entendeu-se-lhe abonar a gratificação anual de 100$000 até manter o Hospício facultativo próprio.
A Medicina conta várias especialidades, mas a do tratamento das enfermidades mentaes é sobremodo difícil, enfermidades aquelas de aflição ao gênero humano desde os mais remotos tempos, nos quaes o eplético era tido por padecente de Mal Sagrado: mal sim, sagrado não, como se disse com certa ponta de ironia na compaixão.
Para tratar alienados do século XIX recorreria Jobim e quantos lhe sucedessem no Hospício às lições de Pinel, Esquirol e outros alienistas, a Inglaterra a primeira a tratar loucos em asilos especiaes.
Em Março de 1845 os administradores do Hospício, desejando conhecer o que se praticava nos estabelecimentos similares da Europa, encarregou o Dr. Antônio José Pereira da Neves de visitar aqueles estabelecimentos consignando-se-lhe gratificação e autorisação para compra dos utensílios em uso nas principaes asilos de alienados da Europa.
Estabelecido o Hospício ficou-lhe ajuntado o préstimo da chácara do Vigário Geral, pela Santa Casa recebida em mau estado de conservação. Era a chácara cultivada por africanos sob as vistas de administrador subdividindo obrigações com feitores. Vigiava um o serviço agrícola, outro dirigia carreiros, tratava de cinco carros montados e do sustento de vinte bois. Ao administrador superintendente cabia além do mais a fiscalização da lavagem de roupas do Hospital.
Em 1847 o provedor José Clemente, em conferência com oficiaes de Mesa, resolveu incorporar ao Hospício de Pedro II, a chácara do Vigário Geral com reserva da pedreira e de tudo quanto em quaesquer logradouros carecesse o Hospital Geral, a Mesa e Junta considerou a incorporação de caráter provisório.
Incorporando ao Hospício a chácara do Vigário Geral, José Clemente continuava a cuidar da caridosa instituição dando-lhe fins práticos. Não tendo ainda o carácter integro das colônias agrícolas de alienados, servia a chácara ao hospital da praia de Santa Luzia posto à ventilação da barra. Visitado hoje por sumidades médicas estrangeiras ellas o tem por um monumento e se admiram que levantado outr’ora represente agora muito de tudo quanto a higiene hospitalar recomenda.
Não só na chácara do Vigário Geral se procedia às lavagens de roupa para o Hospital Geral como a mesma chácara concorria para bem dos enfermos com hostaliças e canas de assucar, apetecidas por lagartas.
Honrando-se com o sentimento de gratidão, de ninho só nos corações nobres, já de homens, já de instituições, deliberou a Misericórdia levantar estátua ao natural de D. Pedro II posta no salão principal da casa. Em princípios de 1845 chagava ao porto do Rio de Janeiro o blóco de mármore de Carrara destinado ao entalhamento e acabamento da estátua.
Provinha a gratidão da Santa Casa a D. Pedro II da contínua atenção por ele prestada moral e materialmente à natureza divina e aos fins humanos da Misericórdia. Além de dádivas do seu bolsinho, o imperador entregará à Santa Casa mais de sessenta contos obtidos por subscrição na data do casamento de D. Pedro II e D. Teresa Cristina.
Para prova duradoura das ações do protetor dos Hospícios, o escultor dinamarquês Fernando Pettrich foi incumbido de tirar do mármore das jasidas de Carrara a imagem imperial.
Em 1848 o provedor José Clemente dava à Mesa e Junta circumstância da notícia do Hospício de Pedro Segundo da obra principiada a 2 de Setembro de 1841, esperando inaugurá-lo em parte de Julho de 1850 e concluil-o em 1853, inspirando-se a Santa Casa no conselho do Academia Imperial de Medicina. Em toda instituição ou reformas de serviços é indispensável consultar profissionaes e a resolução contrária resulta sempre desastrosa no recorrer a reformadores improvisados, portanto inexpertos, cégos guias de cégos, e muitos os buracos das reformas.
Para feitura da planta do Hospício foram chamados dous engenheiros militares o major Guilhobel e o primeiro-tenente Jacinto Rabello.
Não quizeram o edifío pastelão arquitetônico. Segundo Ferreira da Rosa, no corpo central do pavimento inferior foi observada a ordem dórica no exemplo romano do Teatro de Marcello, empregada no andar superior a ordem jônica, reproduzindo templo helênico de Minerva.
Enquanto Guilhobel e Rebello cuidavam do edifício, o Dr. Pereira das Neves tratava de alienados e tornado da Europa onde se aplicará a psichiatria, sem remuneração alguma se dedicando a infelizes loucos, entendo a Misericórdia fixar-lhe remuneração por votos unânimes da Mesa e Junta.
A 10 de Março de 1854 morria José Clemente honrado a titulo postumo. Tres dias após o obito a viúva do benemérito recebia do governo imperial o espressivo título de condessa da Piedade. A estátua em mármore de José Clemente, talhada por Peltrich, ficou fronteira à de D. Pedro II no salão nobre do Hospício e uma replica em gesso orna a entrada do salão das seções da Mesa e Junta da Misericórdia. No dia de Finados de 1858 a Santa Casa inaugurava monumento a José Clemente na necropole de S. Francisco Xavier, encimando-o com a estátua da Caridade. Tanto se enobrece quem recompensa longos serviços quanto quem recebe o premio na equivalência da justiça e do mérito.
Os continuadores de José Clemente na provedoria tambem o foram da sua obra do Hospício de prestimo assegurados na ordem, no asseio, na economia por parte das devotadas Filhas da Caridade reunidas em família de altruísmo por S. Vicente de Paulo, figura que, por mais que insistisse em ficar na sombra, ficaria em luz para humanidade toda sofredora, rica ou pobre sujeita ao tributo sempre cobrado pela dôr.
Em fim, de Julho de 1889, das mãos e dos cuidados do conselheiro Oliveira Fausto recebia vara de provedor o visconde do Cruseiro, senador Jeronymo Teixeira Júnior, genro do antigo provedor marquês de Paraná.
Pouco depois de subir à provedoria da Santa Casa, Cruseiro vio a Monarquia descer à morte pela proclamação da República, Dous sucessos de monta assinalariam a provedoria Cruzeiro: a creação do Asilo da Misericórdia e a transferencia do Hospício de Pedro II, passado a Hospício Nacional de Alienados e sujeito à administração pública federal.
A fundação do Asilo obedecia à necessidade de abrigar umas quatro centenas de meninas desamparadas por orfandade, óbito ou abandonos de paes. Cruseiro repetio José Clemente. Apelou para caridade pública e de tal modo este lhe correspondeu que o Asilo se fundou e vive até hoje, tendo para elle contribuído, segundo Vieira Fazenda, pescadores e lavadeiras da praia de Santa Luzia. A esmola do pobre, à luz do cristianismo, é sublime, no tirar do quasi nada.
Não concordou, porém, o provedor Cruseiro, e explicou cabalmente as razões da discordância, com ato discricionário do Governo Provisório de 89 transferindo para o poder público a administração do Hospício. Cruseiro deixou a provedoria da Santa Casa de acordo com as tradições de quem tendo exercido com altivez os mais altos cargos no antigo regimen não se queria diminuir em nova situação política. Não houve meios de demovel-o da atitude. O homem de bem quando resolve, resolve de uma vez.
Por meio século a Misericórdia carioca teve a seu cargo, como obra própria, o Hospício de Pedro II. De 1890 em diante ficou, e está sob alçada alheia. E acaba de celebrar centenário de fundação com anuncio de desaparecimento do primitivo local à voz de requiescat in pace, curioso quando a instituição celebra vida de século.